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segunda-feira, 14 de abril de 2014

O meu 25 de Abril (40)

Saiu em 1967 comprei em 1972 (a edição que está na foto e ainda guardo), na Livrelco, onde de vez em quando emergia da profunda escuridão e via a luz funesta da ditadura. Trata-se de O canto e as armas de Manuel Alegre, é o Livro dos tempos do fascismo, e contém todos os cânticos que fizeram a liberdade, Este por exemplo. Boa parte estão na antologia que saiu agora. Mais vale tarde do que nunca.

As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

sábado, 12 de abril de 2014

O meu 25 de Abril (39)

A lista de livros "fora do mercado" era enorme, alguns eram os autores que eram banidos, independente do que escrevessem, outros casos eram temas inabordáveis, caso da guerra colonial, ou então os livros eram retirados pelo seu conteudo. Editoras e livrarias eram vigiadas e as rusgas e apreensões eram frequentes, mas muitas vezes encontrava-se aquilo que queríamos debaixo dos balcões ou guardados para certos clientes. Também a visita aos alfarrabistas permitia encontrar muitas obras proibidas. Eu por exemplo visitava muito o "Ás do Livro", nas Escadinhas do Duque, junto à Estação do Rossio, onde se encontrava um pouco de tudo, sendo que os livros retirados do mercado eram novos, embora à venda num alfarrabista. Ninguém percebia bem qual era o critério, pois livros de inspiração marxista, uns estavam à venda outros eram apreendidos, talvez pelo título. Eram tudo uma grande idiotice, e estavamos nas mãos desta gente sem caco !!!  Um local mitico onde encontrava tudo à venda era a Livrelco, uma "cooperativa livreira de universitários" de que era sócio, e onde encontrava livros cientificos para estudar, mas sobretudo muitos dos livros proibidos, pelo que ali as visistas da PIDE eram frequentes, ao que parece tinham locais onde guardavam os livros e mudavam de local com frequência. Mas esta porta em breve iria fechar-se, pois foi encerrada pela PIDE no inicio de 1973. A partir daí tudo se tornou mais dificil. De qualquer forma o avanço do marcelismo tornou as editoras mais corajosas, e a quantidade de livros a proibir já era tão grande que era dificil controlar. Apareceram novas editoras como a Estampa, a Afrontamento, a Nosso Tempo, que se juntaram à D.Quixote, Seara Nova, que procuravam editar livros que nunca chegariam ao publico sem um pouco de arrojo. O meu 25 de Abril não seria o mesmo sem estas leituras.

domingo, 6 de abril de 2014

O meu 25 de Abril (37)

É por estas e por outras que a partir do 25 de Abril votei sempre em todos os actos eleitorais não falhando um unico. Não votei sempre do mesmo modo, mas votei. Não gostei de muito do que ouvi mas acompanhei todas as campanhas eleitorais, e apesar de todas as diatribes, aldrabices, aproveitamentos, disparates, incompetências, irresponsabilidade, conversa fiada, continuo a respeitar a política e os políticos, onde há gente boa e gente má como em todas as actividades da vida. Eu que acompanhei as eleições de 28 de Outubro de 1973, e sei bem o que eram as eleições desse tempo, e o que terá custado dar ao povão a liberdade de voto tenho dificuldade em deitar tudo borda fora. Foram as primeiras eleições totalmente realizadas pelo regime de Marcello Caetano e onde se poderia "testar" a sua política que chamava de "evolução na continuidade", que era afinal o salazarismo com uma pitada de conversa fiada. Desde o acesso aos cadernos eleitorais limitado, e sabe-se a importância que tinham pois os boletins eram enviados aos eleitores, a exclusão de candidatos, o periodo limitado de campanha, durante o qual havia uma abertura limitada a outras opiniões, mas essas quase não tinham expressão pública, pelas imposições da censura, as perseguições, as detenções por delito de opinião, as sessões vigiadas, canceladas, e o risco que corria quem se expressasse de forma livre. Participei nalgumas, estive algumas vezes na sede local da CDE na Cova da Piedade, trouxe e distribuí alguns comunicados, mas tudo era semi clandestino, apesar de se estar em "período eleitoral". Que diferente do que tinha observado um mês antes na Suécia, onde tinha estado a fazer o Inter Rail. No final as dificuldades eram tantas e os obstáculos postos de tal ordem que os responsáveis acharam, e bem, que não poderiam validar tais procedimentos participando nas eleições e como tal colaborar numa aparente normalidade com os desacatos de uma sistema repressivo, ditatorial e totalmente incapaz de fazer coisa tão simples e tão vulgar na Europa dessa época, eleições livres. Assim os candidatos da CDE, uma Comissão Democrática Eleitoral, que tinha por detrás o acordo do PCP com o PS, e que não podiam surgir pois os partidos estavam ilegalizados no país, acharam por bem desistir e deixar o regime a falar sozinho, o que foi celebrado pelos candidatos da ANP, de onde já tinham sido expurgados os deputados da ala liberal, como reconhecimento de derrota. Elegeram assim os 150 deputados da Assembleia Nacional  e tiveram 1393294 votos em mais de 8 milhões de portugueses a maioria deles de pobres funcionários públicos que tinham mesmo de votar senão seriam apontados a dedo, de legionários e outras "forças vivas" . Coitados, poucos meses mais tarde veriam a dimensão da sua "vitória" !!!

sábado, 5 de abril de 2014

O meu 25 de Abril (36)

Estive cerca de uma semana em Lund. A minha intenção era exploratória, para ver as condições de vir fazer o salto, como o meu amigo. Na realidade fui tendo adiamentos militares até ao 25 de Abril e a guerra acabou por me passar ao lado. Por lá as coisas funcionavam com tranquilidade. A Suécia tinha uma activa política de apoio aos que se opunham ao colonialismo, graças à politica dos social democratas com Olaf Palme à cabeça. Assim após uma apresentação às autoridades explicando que se era perseguido no país de origem era possível obter estadia, apoio monetário e alojamento, bem como aprendizagem da língua. Não conheço os detalhes, mas aparentemente o meu amigo estava bem  integrado e corria tudo bem. Claro a Suécia era outro mundo, a calma era muita, a liberdade grande, em todos os domínios, a limpeza era impecável nas ruas, o tempo era sempre muito cinzento, na altura anoitecia pelas 4 da tarde, e pelas 5 da manhã já era de dia, não havia a "bica", bebiam uns baldes de "café" de saco, mole e sem grande sabor, reconheço que nesse aspecto nada se comparava com o nosso Portugal, ao fim de semana o pessoal enfrascava-se, pois a venda do alcool era controlado e reduzida a lojas do Estado.
Estava na altura de pensar em regressar, e assim fiz. Faltava ainda mais de 15 dias para a data a que tinha de chegar, não só porque o Inter Rail caducava nos 21 anos, mas a autorização de saída também iria caducar pouco tempo depois. Planeei a viagem de regresso, coisa que o viajante deve fazer, e organizei-me para estar uns dias em Copenhaga, depois Munique, Genebra e de novo Paris, onde cheguei no inicio de Outubro de 1973. Tinha gostado tanto da cidade que pensava lá estar mais alguns dias, agora já a pensar no regresso ao rectângulo. Munique também me tinha agradado, até pela coincidência de ter passado durante a Festa da Cerveja, tradicional na Baviera, onde grandes alemães comiam salsichas gigantes, e canecas de cerveja que nunca tinha visto antes. Uma alegria indescritível. Da Gare de Austerlitz a Santa Apolónia, onde cheguei a 5 de Outubro de 1973, num comboio meio vazio, e tristonho, ao contrário da saída num comboio a atafulhar de emigrantes, crianças, panelas de sopa, cabazes com enchidos, e vinho a rodos, na alegria da saída. O regresso era sempre triste, sabíamos que voltávamos para os "oito séculos de história" regados com o vinho dos pobres e o sangue dos soldados. Uma desolação !!! Que falta fazia o 25 de Abril, nem sabíamos quanto !

sexta-feira, 4 de abril de 2014

O meu 25 de Abril (35)

Setembro de 1973 embarcava em Santa Apolónia para o meu primeiro e único Inter Rail. Já aqui publiquei diversos posts relativos a essa viajem inesquecível, mas no contexto do meu 25 de Abril, não poderia deixar de a referir aqui. Estava a um mês de completar os 21 anos, na altura idade limite para se usufruir deste bilhete, que permitia viajar em toda a Europa, ou pelo menos na Europa Ocidental, pois nestes tempos, havia uma coisa que se chamava Europa de Leste, que era inacessível a estas benesses, com os seus regimes comunistas, em que o "povo" governava (está-se mesmo a ver...) A viagem foi a minha primeira saída fora deste rectangulo cinzentissimo. Assim de comboio até Vilar Formoso, onde a PIDE passava a pente fino o pessoal, sobretudo os que estavam na "idade militar". Daí a Irun/Hendaye e mais tarde Paris, onde cheguei dia 12 de Setembro, o dia seguinte ao Golpe Pinochet no Chile. Aí fiquei admirado com as repercussões públicas deste evento, coisa impensável em Portugal. Dormi três noites, num "auberge de jeunesse", e visitei algumas coisas que tinha imaginado. O Louvre, o Jardim Luxembourg, a Notre Dame e sobretudo o Quartier Latin, onde o Maio tinha ocorrido há 5 anos, a animação era muita, manifs permanentes na Place S. Michel, e a livraria Joie de Lire, onde comprei algumas obras que jamais chegariam a Portugal, pensava eu. Paris era e facto, coisa que ainda hoje se mantem, uma cidade espetacular, de dia e à noite. Gente por todo o lado, um ar que se respirava em pleno, e uma sensação de liberdade que contrastava com as cidades portuguesas, acabrunhadas, cinzentas e cadavéricas. Este meu primeiro contacto mostrava que a liberdade era possível, e não era o "fim do mundo", o "deboche", de que os politicos fascistas referiam em Portugal. E lá andavam os portugueses nas ruas, a trabalhar nas obras, nas limpezas, nos táxis, a fazer pela vida que lhes era negada em Portugal. Mas o meu destino era Lund, na Suécia, onde o meu amigo e vizinho, tinha combinado receber-me e já era candidato a refractário, onde estava desde 1972, pelo que não poderia regressar a Portugal. Assim depois deste primeiro banho de cosmopolitismo, meti-me de novo no comboio na Gare du Nord, rumo a Copenhaga, onde cheguei depois de uma viagem nocturna de 16 horas, pela França e Alemanha. De Copenhaga iria rumar de barco a Malmoe e Lund distaria uns 30 quilómetros, coisa rápida, e acabaria por encontrar o meu amigo numa residência universitária, rodeado de verde, de bicicletas, já a estudar na Universidade local. Tudo ali me espantava, estavamos em campanha eleitoral na Suécia ( coisa que iria ocorrer em Portugal em Outubro de 1973) e ali pude ver o que era uma campanha em liberdade, coisa de que só ouvira falar. Que pacóvio !!!

quinta-feira, 3 de abril de 2014

O meu 25 de Abril (34)

A situação da escola, acabaria por ter as suas consequências sobre as pessoas. Uns acabaram por ser incorporados no serviço militar, outros inscreveram-se em outras escolas, pois nada os impedia, em Coimbra, no Porto, ou mudaram de curso, houve mesmo alguns que foram inscrever-se em Lourenço Marques, hoje Maputo, onde abrira a Universidade. Outros desistiram, um ou outro terá sido preso. Comigo também tinha de haver impacto. Embora não sendo "primeira linha", como dizia o Sales Luís, apoiava e participava. As novidades vieram pelo correio, agora o meio privilegiado para o Sales "falar" com os alunos do Técnico. Dia 3 de Janeiro de 1974, o ano acabava de começar e recebo em casa uma dessas cartinhas, em que me era aplicada uma suspensão por um período de três meses. Não era invocado qualquer motivo, qualquer processo disciplinar, qualquer procedimento que tivesse levado a essa decisão. Era uma decisão da direcção da escola, ponto final. Embora tendo comigo o cartão mágico que permitia a entrada na escola, se o tentasse ele seria apreendido, assim não tentei sequer entrar. Acabámos por nos juntar várias vezes em Medicina, e acabei por saber que comigo totalizavam cerca de 60 suspensões, as tais segundas linhas, que se juntavam aos cerca de 20 que já tinham sido expulsos no ano anterior. A suspensão era igual para todos, e aplicava-se "apenas" às aulas, poderia fazer exames nas datas respectivas, mas não poderia assistir às aulas nem entrar no Instituto. Escusado será dizer o impacto que tal situação teve nos meus pais, por exemplo. Mas enfim pensei que fosse pior, pois nesta altura já ninguém esperava que um aluno universitário tivesse vida fácil, apesar de uma "vox populi" que o regime alimentava de que os estudantes eram uns priveligiados, e que em vez de estudarem, como lhes competia, faziam agitação política a soldo dos tais interesses inconfessáveis. E assim foi, não podia ir às aulas, mas ía a reuniões, pelo que o pessoal manteve contacto, ía trabalhar, e já agora aproveitei para retirar de casa uns sacos com livros e comunicados menos "recomendáveis" que um colega meu dos CTT guardou, um que nada tinha a ver com a universidade, não fosse o diabo tecê-las. Ainda fiz um ou dois exames, de cadeiras que tinha em atraso, o que implicava apresentar-me à porta, apresentar o cartão, dizer que vinha para o exame tal, o que era confirmado, e era dada autorização de entrada, mas depois de acabar o exame tinha um período curto para sair, senão o cartão podia ser apreendido. E foi assim que os dias foram decorrendo até 3 de Abril, data a partir da qual podia voltar ao convivio dos colegas. Nessa altura já só faltavam 22 dias para o 25 de Abril e o Sales estava por dias.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

O meu 25 de Abril (33)

Passo agora a explicar como se transforma uma escola numa prisão, e foi o que aconteceu ao meu Técnico nos anos 73 e 74 até ao 25 de Abril. De facto tudo era permitido para manter a fachada da normalidade, para um sistema que tinha tudo de anormal. Comecemos pelo principio. Para ser prisão tinha de ser fechada, e foi isso que o director Sales Luis montou. Primeiro, como se considerava um democrata, convocou todos os estudantes por carta para uma RGA, que se realizou no estádio universitário, no pavilhão, pois o IST estava encerrado, e onde "propôs" o seu esquema, claro limitou-se a informar o pessoal. A escola estaria sempre de portões encerrados, para evitar a entrada de agitadores exteriores à esscola ( a velha tese dos agitadores a soldo de interesses inconfessáveis), e a entrada far-se-ía pelo portão da Alameda, onde se abria uma barraquinha onde quem entrasse tinha de se identificar e só entravam os portadores de um cartão especial que foi criado e entregue. O cartão era retido, e na saída era devolvido. Assim sabia-se sempre quem estava na escola, e para evitar problemas, foram retirados, ou não foram entregues cartões a determinadas pessoas, os tais "agitadores a soldo". A qualquer momento o cartão podia ser retido o que impedia o aluno de entrar. Este sistema foi implantado no reinicio do ano lectivo em Outubro de 1973, em troca a polícia de choque deixava de estar em permanência estacionada na escola, o que não impediu ainda algumas chamadas da polícia. Reconheça-se que não era o Sales que a chamava, pois parte do poder já não estava nas suas mãos. Elementos de outras escolas não podiam entrar, pois não dispunham do cartão mágico. Assim em Outubro recomecei o terceiro ano de novo, pois o ano lectivo anterior não tinha chegado ao seu termo, no entanto as cadeiras já feitas nesse ano eram consideradas. Os alunos expulsos ficaram de fora, e só o 25 de Abril os reintegrou. Entretanto quase todos os dias havia incidentes, apupos, protestos, meetings, afixação de cartazes, e outras actividades mais ou menos contestatárias. Isto sob os olhos de alguns vigilantes que tomavam as suas notas, o que podia levar a "reter" o cartão e assim impedir a entrada dos mais activos. Foi isso que me tramou !!!

segunda-feira, 31 de março de 2014

O meu 25 de Abril (32)

Após os acontecimentos de Outubro de 1972, com a morte de Ribeiro Santos, jamais houve "sossego" nas diversas faculdades. A minha memória não chega para recuperar todos os acontecimentos de caracter académico, anti repressivos ou mesmo de cariz político que se passaram no Técnico nessa altura. Entrava no ano lectivo 72/73 para o terceiro ano, o célebre terceiro de electricidade, e a sucessão de acontecimentos que conduziram à anulação desse ano lectivo é imparável, qualquer diferendo com professores, avaliações, conduzia a sucessivas RGA, a formas de luta e greve a provas ou exames, mas agora, o conteúdo político era mais intenso e já extravazava a escola. Eu apesar de estar no terceiro ano tinha ainda uma cadeira do primeiro em atraso, Análise Matemática II, que tinha necessáriamente de fazer nesse ano, pois corria risco de prescrição, o que ocorria ao terceiro chumbo, e impedia de pedir adiamento ao serviço militar o que implicava incorporação imediata.  Felizmente acabei por fazer essa cadeira em Fevereiro de 1973, e o pior passou, mas entretanto os diversos acontecimentos, levaram a que a polícia de choque se instalasse de armas e bagagens no interior da erscola, onde chegava todas as manhãs e só saía ao fim da tarde, para evitar qualquer manifestação de contestação. Era a repressão em si mesma, e era a solução "pedagógica " para todos os males. No entanto a contestação continuava, as aulas eram interrompidas, exames boicotados, um grupo de 20 e poucos alunos foram expulsos, durante 1973, o que agudizou as lutas, e tornou o ambiente irrespirável. Para controlar o que se passava nas alamedas do Técnico, o novo director Sales Luís, mandou instalar câmaras de filmar nos telhados, e quando havia ajuntamentos ou contestações ruidosas, o Sales, que até tinha sido um bom professor, mandava um seu acólito subir aos telhados e filmar o que se passava. Mas ainda não se conhecia o comando à distância nem as câmaras portáteis, pelo que dava muito nas vistas e aumentava a fúria da estudantada. Um dia o pessoal "passou-se" subiu aos céus, e eis que a câmara voou do telhado, aterrando em estilhaços no calçadão !!! Foi a gota de água...
Este director, que só saiu no 25 de Abril ficou tristemente conhecido por Bufo Sales. E assim se perdeu um bom professor, amigo de Louis de Brooglie, autor dos manuais de Fisica decentes pelos quais estudávamos, que tinha um assistente que tinha sido o melhor aluno do Técnico dos ultimos anos, António Guterres, que ainda foi meu professor de Física II, único assistente a quem o Sales permitia dar aulas teóricas. Mas a situação só piorava, e em Maio de 1973, se a memória não me atraiçoa, para dominar a situação que nem com polícia lá ia, o Sales decidiu anular o ano lectivo, encerrar a escola e mandar tudo para casa de férias antecipadas. A partir daí começou a comunicar com os alunos através de cartas que enviava para casa, para alertar os pais da situação em que a escola estava, como se todos fossem meninos do liceu. O macacal apanhou-se de férias e foi engrossar a contestação em outras escolas, reunindo as comissões de curso em Medicina, escolhida sempre porque a mistura de escola e hospital, e o seu caracter labirintico, impedia a policia de actuar pois todo o publico entrava no Hospital de S. Maria, e não se podia distinguir os estudantes. Começava agora um perído negro em que o Técnico já não abriria normalmente até ao 25 de Abril, transformando-se sob a batuta de Sales Luis numa escola- prisão. Depois explico como !!!

domingo, 30 de março de 2014

O meu 25 de Abril (31)

Já aqui referi através dos Cadernos D. Quixote, o contributo desta editora, entre muitas outras, e de Snu Abecassis, para um ambiente mais esclarecido, mais informado, e o combate que travou através da sua editora, contra o obscurantismo. Hoje quero referir uma outra iniciativa da D.Quixote, para pôr na mão de muitos portugueses autores que ou não estavam disponíveis, ou não tinham tido acesso ao grande público de uma forma tão vasta, e sobretudo tratando-se de poesia. Estou  falar dos "Cadernos de Poesia" que a editora começou a publicar no inicio dos anos 70, e que permitiu de forma sistemática fazer chegar ao grande público, autores valiosos, portugueses e estrangeiros, através de uma edição barata, com formato popular, e sem constrangimentos. Uma iniciativa desta editora, que publicou os maiores escritores contemporâneos nesses pequenos cadernos, deste Carlos Oliveira, Alexandre O´Neil, Vinicius de Morais, Ramos Rosa, Ruy Belo, Natália Correia, entre muitos outros. As capas eram coloridas, a edição cuidada, salientavam-se quando colocados nas montras das livrarias, e nessa altura havia "mesmo" livrarias, e não "supermercados de livros", onde donos de livrarias procuravam fazer o "marketing" do seu produto, e custavam entre 20 e 25 escudos cada livrinho, em média com 100 páginas. Foi mais um contributo para o meu 25 de Abril, pois gente que lê poesia é gente melhor, mais livre, com mais pensamento, pois a poesia forma a sensibilidade do leitor, coisa que a ditadura dispensava. Para essa gente, saber as quatro operações básicas, ler e contar até 10 seria cultura mais do que suficiente. Poesia era só para formar mais agitadores...

sexta-feira, 28 de março de 2014

O meu 25 de Abril (30)

A "autorização de saída" era imposta a todos os jovens que pretendiam viajar para o estrangeiro, quando estes se encontravam em idade militar, isto é a partir dos 18 anos. Assim quando no verão de 1972 imaginei poder vir a fazer uma viagem ao exterior, pois era preciso passar além dos Pirinéus para respirar, era necessário obter o passaporte, o qual era passado por periodos curtos, não é como agora, e para sair caso se estivesse em idade militar, era preciso obter uma autorização, a qual era pedida no DRM, Departamento de Recrutamento Militar, e era concedida, ou não, após análise caso a caso. Era uma forma de ter a "pata" sobre os jovens, procurando dificultar a sua saída, dado o risco de não voltarem, por isso a emigração tinha de se fazer "a salto". Esse documento tinha de acompanhar o passaporte na saída, e sem ele seriamos retidos na fronteira. Aí a PIDE, que também controlava as fronteiras, ficava com o documento de autorização, o qual era válido apenas por 3 meses, e devolvia uma parte destacável e que seria guardada religiosamente pelo "viajante", para devolver no acto de regresso, que tinha de se fazer dentro do prazo de validade da dita autorização. Depois a PIDE casava o documento de saída com o de entrada para se assegurar que o jovem não se tinha "pirado", sendo nesse caso considerado "refractário" e caso regressasse seria preso e incorporado à força no serviço militar. Comigo aconteceu que tendo pedido a autorização não a utilizei pois acabei por não sair. Passado alguns meses uma brigada da PIDE visita a minha casa, onde por acaso não estava, mas inquiriu os meus pais sobre qual tinha sido o meu destino, e se tinha saído do país. Claro que ficaram assustadissímos, pensando "no que é que o meu filho anda a fazer", pois era uma visita indesejável a qualquer família portuguesa. Desta nada aconteceu, mas fiquei bastante desconfiado, pois embora não tivesse qualquer actividade política, era um estudante activo, e que a nível estundatil procurava participar dentro das minhas possibilidades, pois agora trabalhava também, nas actividades do Movimento Associativo. Afinal a PIDE controlava mesmo, e não só os "comunistas" era tudo o que mexesse, todos os que puxassem pela cabeça, todos os que quisessem intervir, ver e participar "out of the box", como se diz agora, fosse quem fosse. Afinal todo o país parecia mesmo uma prisão.

terça-feira, 25 de março de 2014

O meu 25 de Abril (29)

Neste percurso pelo meu 25 de Abril, ou seja o processo de anadurecimento pessoal que conduziu ao meu dia 25, e cada um teve o seu, fazemos hoje uma paragem numa pequena publicação que comprei sempre até aos dias de Abril. trata-se de uma pequena revista, que começou sem grandes ambições em Dezembro de 1969, e manteve uma publicação regular durante anos.  O seu primeiro número trazia na capa Francisco Fanhais, que ainda hoje canta com o mesmo espirito desses anos, Trata-se da revista Mundo da Canção, que começou com a publicação de letras das canções, nomeadamente aquelas cujo conteúdo era mais significativo, depois foi produzindo artigos que faziam a cobertura de eventos musicais, entre outros, sempre numa perspectiva progressista. A revista era mensal, publicava-se a partir do Porto e suportava sempre os eventos mais interessantes na actividade da musica e musicos de intervenção, e de alguma musica anglo-saxónica. A partir de certo momento a revista começou a publicar contributos dos seus leitores, nomeadamente no domínio da poesia, espaço coordenado por Viera da Silva, ele próprio escritor e musico, e foi lá que acabei publicando alguns textos que produzi nos meus 18 ou 19 anos, que regularmente a revista publicava, e que mantive até ao 25 de Abril. A partir daí a inspiração voou, outras prioridades apareceram e a poesia deixou de ser uma necessidade na minha vida, pelo menos como produtor, pois como leitor continuo a acompanhar e a ler regularmente. mais uma vez quardei essas revistas, mas as voltas acabaram por dar descaminho, não tendo agora qualquer registo dessa dezenas de textos que a revista publicou. Após o 25 de Abril a revista deu lugar a uma empresa que organizou concertos, importou musica, editou livros e ainda hoje tem um site na internet.

segunda-feira, 24 de março de 2014

O meu 25 de Abril (28)

Íamos entrar em 1972, e este ano seria de grande viragem e contestação, seja por motivos académicos, ou políticos, pois uns e outros estavam sempre muito ligados. Em geral tudo começava por motivos académicos, um exame, umas aulas, um professor que exacerbava o sem campo de acção, ao que se juntava numa segunda fase mais um motivo de solidariedade com algo que se passava noutra escola, o que conduzia a situações de entrada em aulas para "dar" informações, e isto era assegurado pelas "comissões de curso", depois fazia--se reunião de curso, ou se se justificava, RGA, reunião geral de alunos, onde se aprovavam moções, propostas ou formas de luta se se justificava, que depois se tinham de pôr em prática, e assim a "panela" ía tomando pressão, até que um pequeno acontecimento era o pretexto para saltar a tampa, numa panela que já fervia. Claro que diversas forças políticas estavam presentes, de forma clara ou mais ou menos encapotada, e faziam do meio universitário seu campo de actuação, vistas as liberdades de que ali se usufruía, conquistadas pelos estudantes, mas também cedidas ao abrigo da já falada autonomia universitária. Claro, quando o molho entornava, lá se ía a autonomia, e a polícia entrava com ou senm informação prévia, o que levou a muitas demissões de Directores e Reitores. Aconteceu aqui onde o Prof. Fraústo da Silva, acabou por sair após uma invasão da polícia, que ficou instalada uns dias no interior, procurando controlar e apanhar alguns "agitadores" como na altura se chamava. O ano de 1972 fica ainda marcado pela morte de Ribeiro Santos, de que apenas tive notícia, a nada assisti, na altura trabalhava e muito do tempo aproveitava-o para isso. Deu-se em Económicas, na sequência da "detenção" pelos estudantes de uma pessoa que retirava apontamentos dos cartazes expostos, tido por "bufo", o que levou a que uma brigada da PIDE lá se deslocasse para identificar e levar o himem (era um pide também, provavaelmente). Perante a presença da brigada os ânimos agitaram-se, nomeadamente pela facção do MRPP, na altura com presença forte em Direito e outras escolas, e os pides ao se sentirem ameaçados sacam da arma e dispsrsm város tiros, e um deles atinge mortalmente e à queima roupa Ribeiro Santos, estudante e dirigente associativo de Direito, e fere José Lamego. Esta morte, pela primeira vez dava-se um caso assim na Universidade, ocorreu a 12 de Outubro de 1972, mudou de forma definitiva a relação já degradada das autoridades com a Universidade e teve reflexos em todas as escolas. O MRPP tirou o maior partido que pôde, até hoje, pois ainda existe (!!!), A partir daí o ambiente torna-se irrespirável. Meetings, RGAs, Plenários, a propósito ou não, tudo acabaria por desiquilibrar o equilibrio instável que se tinha vivido nos últimos anos. Eu ía entrar já no 3º ano. em 72/73, e estava agora na comissão de curso do" terceiro de electricidade" como se dizia. esse ano lectivo iria ser anulado, e o Técnico encerrado devido às condições de total instabilidade que se iriam viver na Escola. O novo director Sales Luís, iria conseguir reabri-la mas pagaria caro a ousadia. De facto esta morte haveria de ser o detonador de tudo, pois na altura o que sucedia numa escola reflectia-se logo em toda a academia.

domingo, 23 de março de 2014

O meu 25 de Abril (27)

Recuperámos daquela noite intensa após duas horas de sono. com umas sandes e uns sumos levados de casa, não se podia comprar fora, e a manhã foi passada na Praia da Rainha, em Cascais onde se dormiu até à hora do almoço, o qual se fez na praia com o resto do que se levava no saco, O segundo dia começava pelas 16h e ía ser mais curto e menos marcante. As pessoas também eram menos,  muitos não tinham resistido à avalanche musical da noite anterior, estavam esgotados, outros já tinham tido a sua dose de jazz, se calhar para o resto da vida, nós mantinhamos de pé, para ouvir um segundo dia clássico, com o Phil Woods, e um grande quinteto onde se salientou o baterista Daniel Humair, francês, que após um solo de bateria deixou no chão uma poça de suor tal a intensidade da sua musica. O Festival fechou então com o grupo de estrelas, Giants of Jazz, onde se salientava Dizzie Gillespie, com as suas reconhecidas bochechas no trompete, Art Blakey, Thelonius Monk, Sonny Stitt, e outros. Era um jazz clássico, be bop, servido por grandes lendas, imaginemos Monk, talvez o maior pianista do jazz de sempre, ainda vivo, mas já em fim de carreira Art, um dos maiores bateristas de todos os tempos, Dizzie um trompetista alegre, exuberante e perfecionista, Sonny um saxofonista de todos os tempos na nossa frente, iniciados nas lides, a ouvir semelhantes executantes, que desperdício !!!  Claro que a nossa preparação não nos permitiu dar o devido valor a estes enormes instrumentistas, pois o nosso gosto musical ainda estava muito influenciado pelo rock, nem ao reportório de standards que nos apresentavam, onde não faltavam os maiores temas do jazz americano de todas as épocas. Uma verdadeira enciclopédia passada de forma ilustrada pelos nossos olhos e ouvidos. No final mais assobios para o Nuno Martins que insistia em ser o "locutor" de serviço e palmas para Villas Boas, o homem que afinal colocou as sementes do jazz no coração de muitos milhares de portugueses, umas floriram outras não. Claro podem perguntar o que tem o 25 de Abril a ver com isto tudo ? Quem pensa que o 25 de Abril foi apenas um golpe militar, claro que não sabe responder a esta pergunta. Na realidade jamais o jazz se deu bem com a ditadura, e quanto mais se ouvia jazz, o que passou a acontecer mais desde este fim de semana, mais se voava contra as regras da ditadura, as suas musicas arrumadinhas, o seu nacional cançonetismo. "Jazz é cultura" dizia-se, mas é também e sobretudo libertação. Nos anos seguintes continuaria o Festival, com grandes nomes e eu ainda assisti a várias edições, lembro Elvin Jones ou Jean Luc Ponty e David Brubeck em 1972, e manteve-se em Cascais até 1980. Mas jamais se esquecerá este fim de semana irrepetível e "irrevogável" das nossa vidas.

sábado, 22 de março de 2014

O meu 25 de Abril (26)

E a função ía começar de choque !!! Depois de uma espera insuportável de mais de uma hora e meia, eis que alguém anuncia o inicio do Festival, o Vilas Boas, o Nuno Martins (sempre assobiado cada vez que aparecia com seu ar engravatado), não me recordo. Eis que entram os músicos, e em último ali estava a lenda em pessoa, Miles Davis, vestido em pele, calças justas acetinadas verdes, faiscante como uma estrela pop, nada a imagem do músico de jazz, do tal que era cultura. Curvado com o trompete ora apontado para o tecto ora para o chão arrancava dele sonoridades eléctricas que jamais voltarei a ouvir, a música era de uma grande intensidade, e quando ele pára, após um longo solo inicial, acompanhado de muitos Kw de guitarra, baixo elétrico e orgão, eis que um senhor de carapinha inicia um solo de piano elétrico de uma beleza rara, de uma subtilizeza, em crescendo, que nos fazia escutar um fraseado nítido e limpido, enquanto, qual cisne negro, a cabeça se inclinava para trás. Não o conhecíamos, mas estávamos perante outra lenda, que "apenas" acompanhava Miles, era um tal Keith Jarrett, ainda hoje um grandessíssimo pianista. Após mais de hora e meia em que o publico delirou com tal função, ela interrompe-se. Sabe-se agora que Miles exigiu ser o primeiro a tocar, pois sabia que era o primeiro festival de jazz realizado no país e não aceitava que ninguêm tocasse antes dele, pois era mesmo o maior musico de jazz vivo, tinha tocado com todos os que contavam, Parker, Monk, Coltrane, Ellington, e agora inventava um nova forma, a "fusão", criticada por muitos por ser comercial, quase pop, mas apreciada por muitos mais, desta exigência tudo se teve de alterar para satisfazer sua alteza real !!!
Após mais uma hora, já próxima a meia noite, entra um pequeno grupo,  mais aparentado ao que era um quarteto de jazz. Três negros, um branco, espartanos, viscerais, sofridos, agressivos, música incapaz de se domar, bater o pé, seguir um ritmo que mudava sempre e uma bateria que apenas saltitava de forma a não permitir qualquer lógica, sentido ou repetibilidade. O homem que agredia com o sax era Ornette Coleman, super negro, suado, outro de corneta em punho era Dewey Redman, a bateria negra saltitante Ed Blackwell, "bem negro" como o nome indicava, e o branco, nem mais que Charlie Haden, que na segunda música faz a célebre dedicatória aos movimentos de Angola e Moçambique, facto que marcaria para sempre o festival, altura em que a sala vem abaixo, situação que o conduz no final do espectáculo à PIDE, e no dia seguinte durante a manhã a um avião para Londres.
Ainda a noite ía a meio, tocou um quarteto onde ponderava um sax de quem hoje é Rão Kiao, mas na altura tinha outro nome e ainda não apanhara as canas da Índia para fazer flautas, e termina a noite pelas 5 da manhã com Dexter Gordon, acompanhado por Marcos Resende, entre outros.
Para quem tinha estado tantos anos sem nada, foi uma verdadeira "barrigada" irrepetível, pois cada músico era um monstro sagrado do jazz. O calor era intenso, o suor estava por todo o lado, os músicos deram o máximo, perceberam a intensidade do momento, o público estava esgotado.
Dormimos duas horas num saco cama, nas reentrancias do Pavilhão, local que tinha sido aproveitado por outros para "urinar" pois WC havia poucos ou nenhuns, pelo que o cheiro era tão intenso quanto o sono. Foi uma overdose, uma noite mágica e poderosa que jamais se repetiu por cá. A adrenalina do proibido transposto enchia os nossos corações. Enquanto nós estávamos ali muitos da nossa idade estavam no capim numa guerra de que nada entendiam. Ainda assim estávamos melhor.

sexta-feira, 21 de março de 2014

O meu 25 de Abril (25)

Retomo estas crónicas "pessoais e transmissíveis" do meu 25 de Abril com um dos seus pontos altos, foi o fim de semana que mudou muito na minha ainda curta vida. Fim de semana de 21 e 22 de Novembro de 1971. E o evento chamou-se Cascais Jazz, na sua primeira edição. Sobre este fim de semana muito haveria a dizer e muito está dito em muitos artigos e publicações, por isso tentarei fazer o que tenho feito nestes post, sair do óbvio que toda a gente lerá nos multiplos documentos e mostrar o lado pessoal, a minha vivência do que aconteceu.

Porque chegámos lá ? Bom, alguns meses antes tinha comprado na Feira da Ladra um LP de Charlie Parker e outro de um baterista cujo nome não me recordo (já me lembrei, Max Roach...). Foi o primeiro contacto com este estilo de música, que na altura estranhei, pois os meus ouvidos ainda estavam no rock e pop. Havia os "5 minutos de jazz", que ouvia por vezes, e havia a curiosidade que esta música e seus executantes me provocavam. Daí quando anunciado este festival, coisa quase impossivel no Portugal daqueles anos, dissemos que tinhamos de ir. Havia alguns amigos interessados que me dispenso de citar, mas seriamos uns 5 ou 6. Alguns nomes não nos eram estranhos caso de Miles Davis, ou Ornette.

Como chegámos lá ?  Morávamos na margem sul, no Monte da Caparica, e o festival iniciava-se pelas 21h30, pelo que saímos da casa pelas 5 da tarde, apesar do nosso programa não ser bem visto pelos pais, meus e do meu amigo e vizinho, lá fomos de saco às costas, pois teríamos 2 dias pela frente, em que não viriamos a casa, hoje tudo normal, mas na altura nada era assim . Após muitas explicações lá fomos para o primeiro festival de jazz que se realizava em  Portugal. Quatro meses antes tinha havido Vilar de MOuros, mas nóa não tinhamos ido, o dinheiro não chegava.  De autocarro, barco, e junto do Cais de Sodré apanhámos uma boleia para Cascais, pois tinhamos entretanto encontrado os restantes amigos. Pelas 20h, já estavamos lá à porta.

Como era o local ? O Pavilhão do Dramático de Cascais estava ainda em construção, e estava a ser concluido à pressa para o Festival. Ele tinha sido projectado para uma Universíada que acabou por nunca se realizar por razões óbvias. A poeira era imensa, o cimento estava por todo o lado, o desconforto era total, e o pavilhão ainda precisava de muito para ser terminado. Após algum tempo, fomos procurando a entrada, que se fez directamente para a bancada, e fomos procurar um local onde se pudesse dormir por ali, nas reentrâncias do pavilhão. Este festival tinha ainda uma outra estreia no horizonte que afinal, e ainda bem, nunca se concretizou. A possibilidade de experimentar uns "fumos" que ficou adiada "sine die", por falta de "produto".

Assim entrámos num pavilhão poeirento, o ar pouco respirável, um palco improvisado, carregado de equipamento, e instalámo-nos nas bancadas onde os últimos assentamentos de laje ainda estavam visiveis e o cimento mal secara. Nem sei quando custou a entrada, mas penso que os dois dias foram 40 escudos, coisa a confirmar. Em frente da nossa bancada o palco ocupava toda a bancada em frente, e uma faixa anunciava as datas do festival, o local, e a frase que publicitava o festival, "Jazz é cultura". E era mesmo e que cultura de vida para os meus 19 anos, quinze dias antes tinha entrado no IST e aquela praxe de que já falei tinha-me ensinado, se não sabia já, como as coisas eram neste país. Mas estava longe de pressentir o que se iria passar quando começasse a "função".

quarta-feira, 19 de março de 2014

O meu 25 de Abril (24)

 Todos tivemos de um modo ou de outro na vida o nosso "momento che guevara". Um momento em que nos deixámos "apaixonar" por essa imagem mitica, essa visão da revolução romântica, solidária e amigável, poder ser revolucionário no seu quarto, onde posters e imagens substituem práticas mais perigosas na época. Eu também tive esse momento onde fui acompanhado pelo meu grande amigo na altura. Estávamos pelo ano de 1970, a informação de Cuba era pouca, no entanto Portugal até tinha relações diplomáticas com Cuba. Infelizmente quando chegou o "momento guevara" já guevara tinha morrido, havia pouco tempo, pois foi "executado" nas florestas da Bolívia, em 9 de Outubro de 1967. Lemos muito do pouco que havia, eu tinha comprado na Livrelco, de que era sócio, um livro que na altura deu grande brado nas esquerdas, edição brasileira, proibidisimo, "Revolução na revolução", de Regis Debray, intelectual francês, mais tarde preso na Bolívia e que escreveu sobre os métodos, organização e forma de actuar das guerrilhas na América Latina, algo que Marx ou Engels não tinham previsto, pois tudo nestes teóricos apontava para a luta de classes, da classe operária contra a exploração capitalista, mas nas florestas da Bolívia ou da Colômbia não havia nem classe operária, nem capitalismo como eles o entendiam, pois a falada acumulação primitiva de capital nem sequer tinha ocorrido. Assim os métodos seriam outros, e fundados sobre os direitos dos camponeses à terra, era então preciso uma verdadeira revolução no que se sabia da revolução, já neste altura anquilosada nos países ditos da "cortina de ferro". Aos jovens, como eu, arrepiava só de pensar no que eram os regimes burocráticos e autoritários do leste europeu, a intervenção na Checoslováquia tinha mostrado a sua face hedionda, e a imagem irreverente, jovem e solidária da revolução cubana atraía-nos como atraiu os intelectuais europeus que deram durante muitos anos, talvez demais, o beneficio da duvida a Castro, desculpando as atrocidades que já se conheciam, mas que se levavam à conta de propaganda imperialista. Como estávamos enganados !!! Mas esse fascínio que durou até os primeiros anos do Técnico, encheu os nossos dias de sonhos românticos de Sierras Maestras em Castro Daire !!! No Técnico acabámos por ser informados que Castro era igual a Brezhnev, e que Cuba era uma ditadura insuportável, tudo menos aquele paraíso que nos vendiam no merchandising da revolução. O meu amigo e eu passámos a papel quimico o livro de Regis Debray, para que os nossos amigos o tivessem. Perda de tempo. Mais tarde o próprio Regis Debray renegou tudo o que escreveu. ( PS: para ser simpático com as minhas boas memórias daqueles dias, ilustro este post com uma das cançoes mais bonitas escritas para Cuba, e é portuguesa, dos Dead Combo, "Cuba 1970", lindíssima. )

terça-feira, 18 de março de 2014

O meu 25 de Abril (23)

  A musica, os autores, os músicos, os "baladeiros", foram uma das frentes mais interessantes na resistência contra o regime. Se num primeiro tempo tinhamos apenas as baladas com letras carregadas de tristeza, revolta ou protesto, nos finais de anos 60, que chegavam a muitos poucos e sem êxito popular, nem divulgação fora das universidades ou algumas sociedades de cultura popular, a partir dos ans 70 tudo se alterou, e essas músicas aumentaram a sua eficácia através de arranjos musicais bem feitos, letras, embora rebuscadas mas de grande eficácia, o que pouco a pouco impôs muitos músicos e deu-lhes uma popularidade ao nível dos "nacional cançonetistas", que distraiam o povão com as suas "larachas". De tal forma que o próprio Festival da Canção RTP foi invadido por música deste tipo e que lograram vencer alguns deles, como a Desfolhada, Festa da Vida, Tourada, entre outras canções que eram um canto inteligente e só por isso se distinguiam. Em 1972 Portugal esteve presente no Festival da Canção do Rio de Janeiro, e foi organizada uma votação num jornal, penso que seria no "Diário Popular", e os votos eram enviadas em boletins colados em postais, e ganhou nem mais nem menos que José Afonso, e logo com uma música nada neutra ou folclórica, "A morte saiu à rua", que tinha saido no LP "Eu vou ser como a toupeira" de 1972. A canção era alusiva ao assassinato do pintor comunista Dias Coelho em Alcantara, e a sua letra não deixava crédito por mãos alheias, nem falava por meias palavras. E lá foi José Afonso representar Portugal, para espanto de todos. Nunca mais até ao 25 de Abril as coisas foram as mesmas, e essas músicas ouviam-se agora com alguma facilidade nas rádios, eram sucesso junto das pessoas e vendiam bem, como agora não se vende. Até Marcello Caetano falou delas numa das suas conversas, referindo que se tratavam de "factores de desmoralização da nação". Vinha de facto aí um dilúvio que ele nem ninguêm conseguia parar.

segunda-feira, 17 de março de 2014

O meu 25 de Abril (22)

Prosseguia o meu primeiro ano no IST, em 1971/72, após uma "praxe" de choque... o ano decorria com alguma normalidade, tirando algumas pontuais questões académicas, sem grandes consequências. No entanto nesta altura a solidariedade académica era uma realidade, e os problemas das outras faculdades acabavam por se estender também ao Técnico, embora nesta fase Económicas e Direito eram sempre as faculdades mais reinvidicativas. A informação era permanente e na Associação de Estudantes dispunha-se de acesso a tudo o que se passava no país e nomeadamente noticias da guerra colonial, coisa que naturalmente muito nos preocupava, agora que já ía fazer 20 anos, e que iria pedir o meu primeiro adiamento do serviço militar, para não ser incorporado nesse mesmo ano, o que dependia dos resultados académicos obtidos. Na Associação de tudo se tratava, comia-se, compravam-se as "sebentas" ou "as folhas", pelas quais se estudava, muitas eram apenas cópias de documentos manuscritos, tiravamos cópias, faziam-se reuniões, tiravam-se comunicados, compravam-se livros, entre eles muitos dos que estavam "fora do mercado", discutia-se política, futebol, namorava-se, fazia-se desporto, havia uma piscina, não para mim. Era um local onde nos sentiamos livres, num país que era o contrário disso tudo. Um dia, entro na papelaria da Associação, que se encontrava no pavilhão central, e estavam os balcões forrados com as capas de dois discos LP, em cores preta e branca, e que jamais encontrara, sendo que os nomes também me eram desconhecidos. Os titulos eram "Mudam-se os tempos mudam-se as vontades", belo titulo de um poma de Camões, e  "Sobreviventes", de dois autores caidos de céu, José Mário Branco, o primeiro, e Sérgio Godinho. Eram os seus primeiros LP, e estavam ali à venda porquê não se vendiam nas lojas normais de discos, nas discotecas, na altura a palavra significava "casa onde se vendiam discos" e não " casa escura onde se passa ruido insuportável". Custavam 180 escudos cada, muito dinheiro, mas dado que agora trabalhava, acabei por comprar os dois, julgo que um deles muito mais tarde. Ouvi e era diferente de tudo o que escutara. Já não eram "baladeiros" em que a "mensagem" valia tudo, e musicalmente era pobre. Ali não. A mensagem era forte, mas embrulhada num arranjo musical rico e moderno, com influencia pop, sobretudo o tal Sérgio Godinho, que também era autor de algumas das músicas de José Mário Branco. Eram duas obras notáveis, e ainda hoje o são. Arrepiava quando  começava a ouvir o disco do José Mario e o som era de um comboio a chegar à Gare de Austerlitz, ou a música simples do  Sérgio cuja letra se resumia a uma frase repetida N vezes e era   " Aprende a nadar companheiro, que a liberdade está a passar por aqui" acompanhada de excelentes solos de guitarra elétrica e baixo. Cinco estrelas, depois de se ouvirem estes discos sentia-se uma força de derrubar montanhas. Tudo isto se encontrava na minha velha AEIST...

domingo, 16 de março de 2014

O meu 25 de Abril (21)

Hoje seria dificil fugir a falar do golpe das Caldas, que ocorreu a 16 de Março de 1974, isto é faz hoje 40 anos, e ocorreu cerca de mês e meio antes do 25 de Abril. Dizem que acabou por ajudar, acabando por ser um ensaio geral "involuntário" para o 25 de Abril. Penso que hoje ainda não se saberá tudo acerca deste golpe, mas sabe-se que este golpe não tinha um suporte adequado, desde logo não havia qualquer programa ou ideia do que se faria com o poder que se conquistasse. Terão pensado que se saía para a rua e os restantes quartéis iriam seguir o exemplo, numa lógica expontaneísta. Na altura, associou-se o golpe a uma reação ao "beija mão" que os oficiais generais fizeram a Marcello Caetano e que ficou baptizado com o nome de "brigada do reumático", a que faltaram Spínola e Costa Gomes, o que sopunha a sua demissão que veio de facto a ocorrer. De resto o assunto foi abordado pela imprensa e televisão, onde se divulgou um comunicado oficial, com a posição do Governo, e no DN até fez capa, o que mostra que a censura já não estava nos "melhores" dias. Na altura a dúvida era sempre de que lado soprava o vento, isto é, saber se o golpe era a favor ou contra Marcello, pois a sua figura estava muito desgastada, seja junto dos portugueses em geral, seja junto dos oficiais mais reacionários que o viam como alguém algo hesitante, nomeadamente na política para as colónias, onde sabe-se hoje, terá admitido dar a independência a alguns territórios, nomeadamente a Guiné e o ter contemporizado com o livro de Spínola, sem o demitir. Nós sentíamos que o país estava sobre brasas, e nunca como naqueles primeiros meses de 1974 se sentia já no ar o cheiro da democracia, tudo estava como um balde com muitos furos "escorrendo" água por todo o lado, apesar das tentativas da PIDE, e de outros elementos da repressão para os tapar. Sabe-se agora que o verdadeiro 25 de Abril já estava em elevado estado de maturidade.  Não seria preciso esperar muito tempo, apenas 40 dias para que o regime soçobrasse sem uma bala sem que um dedo se levantasse para o defender.

sexta-feira, 14 de março de 2014

O meu 25 de Abril (20)

Nesta altura, inicio dos anos 70,  liam-se jornais, ou pelo menos eu lia e muitas pessoas liam também, de manhã e à tardinha, as ruas, estações de comboios, metro ou barcos, tinham sempre ardinas com os seus pregões que lhe davam uma vida particular. Não havia os meios de hoje, a televisão não tinha credibilidade e as rádios um pouco melhor sobretudo o RCP. Nos jornais havia de tudo, desde os porta vozes do regime, "Diário da Manhã" por exemplo, jornais da situação, quase todos, dominados pela auto censura ou pela censura se a outra não funcionasse, seria o caso do Notícias, Século, Capital, Popular, havia depois outros diários que ousavam um pouco mais, caso do "Diário de Lisboa" e, a partir de 1972 o "República" que julgo que só nessa altura passou a diário, sob a direção de Raul Rego, com grande sucesso, e que era clara e assumidamente um jornal oposicionista, e que eu comprava regularmente, não todos os dias, pois para tal o dinheiro não chegava. O jornal, fundado por António José de Almeida em 1911, era de conteúdo noticioso, mas continha também artigos doutrinários, onde predominava a tendência socialista. Depois de uma vida mais ou menos larvar, até 1972, quando penso que se publicava três vezes por semana (não estou certo desta periodicidade), passa a diário e relança-se com uma nova direcção e uma redação dirigida por Mário Mesquita. Dentro dos limites da censura, e com os truques com que a tentava contornar, conseguia publicar matérias muito interessantes. Só num aspecto a censura era implacável, a guerra colonial, daí nada de noticias, nada de dados, nada de números, não era possivel ter qualquer informação não controlada, era assunto tabu em si mesmo. Quanto ao resto o jornal "Républica" era muito livre, o que naturalmente provocava problemas, cortes, atrasos na saída do jornal, fatal num jornal diário. O jornal terminou em 1976, após um caso de tomada pelo PCP, e com a democracia os partidos começarem a ter uma enome influência, no caso o velho "Républica" deu origem ao "Jornal Novo" e à "Luta", diário que pouco duraram.