sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Densificar

O enriquecimento do linguarejar político parece ser uma das tarefas exaltantes que este Governo escolheu. Para isso recorre à importação de termos da física ou das ciências em geral. Assim dá uma ideia de que as medidas que toma são "científicas", e nada como a ciência para provar que não há alternativas, e por outro lado ao "travestir" as palavras lança uma maior complicação e consegue que ninguém entenda. "Densificar" os critérios de despedimento é a última. Densificar, tornar mais denso, isto é mais peso na mesma massa, o que se obtem misturando um produto mais denso com outro, desde que miscíveis. Mas cuidado, pois pode também significar tornar mais escuro, mais opaco, mais dificil de distinguir. O que quererão dizer é talvez, aumentar a rede de critérios de despedimento, torná-la mais pormenorizada e detalhada, mas será assim ? Mistério. O que sabemos é que se a preocupação desta gente é melhorar e aumentar os critérios de despedimento numa altura em que as energias deveriam ser canalizadas para criar condições de empregabilidade, podem densificar o que quiserem mas através da rede, por mais densa, nós estamos a topá-los !

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Kirch

Fazer da janela um exercício "kirch", de uma cortina um quadro exposto, é uma das característica deste povo que aprecia o que as mãos sabem fazer. Está bem, está mal, é assim e mais nada. A janela é desporporcionada mas a cortininha é mesmo para dar no olho, e vê-se à distância. Ainda em Garvão hoje de manhã, em que o fotógrafo andou por lá.

Janela e porta

Conjunto simples, casa modesta mas a que não faltam as bonitas cortinas que ajustam o aspecto exterior limpo, claro, contrastante, da casa das aldeias alentejanas. Neste caso em Garvão hoje pela manhã esta janela, que não sei a quem pertence, mas a quem peço desde já desculpa pela intromissão, já foi objecto de uma tela que fiz e está em Garvão, na Unidade. Gosto muito da simplicidade desta arquitectura, e do colorido que sublinha as linhas rectas, assim um "eye liner" pensando que as janelas são os olhos da alma que revive em cada casa habitada. Recuperar e manter, não destruir nem introduzir valores "acrescentados" que nada trazem de bom, de bonito ou de confortável. Ficamos assim que ficamos bem.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

O pai foi em viagem de negócios

A vantagem de ser utente das Bibliotecas Municipais é poder ver sem custos pequenas maravilhas, ou ler excelentes livros. Trouxe para ver o filme "O pai foi em viagem de negócios" de Emir Kusturica, filme de 1985, vencedor do Festival de Cannes desse ano, e primeiro sucesso do realizador na altura joguslavo, agora é bósnio. Uma maravilha, que embora já conhecesse ainda nunca tinha visto. Diremos não é actual, a Joguslávia já não existe, o comunismo como se conhecia é agora uma peça arrumada no museu da História, mas as pessoas, a sua mesquinhez, a sua dor, e sobretudo as  ilusões, desejos, sentimentos, rostos, olhares, disfarces, traquinices das crianças são eternas, e as "fitas" dos homens-criança sempre a cair no mesmo erro (o erro chama-se "mulheres") são intemporais e não têm credo, raça, ideologia.ou opção politica. Verdade que todos os regimes têm os seus podres, mas nenhum ultrapassou em cinismo, degenerescência e hipocrisia, o regime comunista, basta ver o que é hoje a China, para perceber quão longe se pode ir. Por isso os filmes dos antigos "paises de leste" sempre foram tão bons, pois os argumentos tinham muito que explorar, até os realizadores terem de se "pirar".
Um filme belíssimo, emocionante e divertido, que confronta o "homem novo" com os velhos hábitos do "velho homem". Se alguém puder ver que veja, não perderá o seu tempo, e é melhor que estar a ouvir debates acerca das praxes..

Nascer de um dia de inverno

Via-se logo, pelo nascer o dia ia ser cinzento, chuva miuda e frio. Enfim, o tempo normal para a época. O que não é normal é que um país afundado nas dificuldades financeiras, na dívida e no desemprego, seja arrastado pelas agendas políticas ou mediáticas, para temas  tão prementes como "as praxes académicas" ou "o referendo sobre a adopção por casais do mesmo sexo". É um país bipolar, resta saber quando é maníaco ou quamdo é depressivo. Agora são as praxes, e é uma torrente de asneiras, o povo em delírio e os meios de comunicação a dirigir a banda, todos a falar do mesmo e tudo aquilo que a semana passada era importante passou à história. A obsessão de um povo manipulado pelos políticos e pelos jornalistas. Tanto esforço para "fazer" a cabeça das pessoas.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Matança (momentos gourmet)

 
 
Não quero deixar de referir aqui algumas das iguarias arrasadoras presentes hoje no almoço. Todas a banir de qualquer candidato a estrelas Michelin, e "empratadas" como agora se diz, à bruta. O sabor não era o da comida requentada, mas da coisa acabadinha de fazer, Fiquem lá com as estrelas Michelin e esqueçam o gourmet. Por ordem de entrada em cena podemos ver a moleja, as migas, e até a arrepiante mesa de sobremesa com tudo o que faz mal a rir-se para nós ali tão à mão.

Matança

É agora a altura de matar o porco e os grunhidos dos pobres animais são audiveis por muito lado. É então o momento de organizar o almoço da matança, que a Associação Futuro de Garvão prepara, numa intenção  solidária de recolher fundos. Lá estive hoje, dando umas belas facadas na dieta, e usufruindo de pratos cujo nome assusta e fazem tremer os diabéticos sentidos do gosto. Assim da cachola à moleja, das migas ao cozido de grão, passando pela orelha os torresmos ou as febras grelhadas, tudo de muito, tudo de bom, tudo pecaminoso. E para concluir a vasta mesa de sobremesas preparadas pelas senhoras especialistas. O pessoal da Associação a dar o seu melhor a cozinhar e a servir para que nada faltasse a mais de duzentos convivas. Muito bom, estão de parabéns, agora vamos ver as consequências...

sábado, 25 de janeiro de 2014

Catos

O título não fica bem mas de acordo com o novo Acordo Ortográfico é como se escreve. Mas o que importa é a ideia de criar uma marca aqui em Ourique, onde parece que nada se passa, para comercializar catos, preparados em matérias recicladas, pedras, vidro, pedaços de madeira, latas de conserva, que pintadas servem de vaso para esses catos, fazendo arranjos muitos bonitos que são vendidos. Original, bonito e muito atrativo, e a marca tem nome sugestivo " Cactos do Monte" ficando aqui uma foto. Já comprei algumas latas de atum com catos, que é uma oferta com muita graça. Boas ideias não faltam no interior "ostracizado".

Rita Dias


Ouvi hoje no meu apreciado programa Hotel Babilónia, mas já tinha ouvido por diversas vezes na Antena 1. Mais um talento, cantora e escritora de letras que lhe saem como um verdadeiro jorro de palavras certeiras. A música tem alguma coisa de musica portuguesa brasileira e a menina é determinada, positiva e muito talentosa, o que se quer neste país que parece condenado a uma punição eterna, "Rita Dias e os Malabaristas", e o seu primeiro album "De pés na terra". A ouvir.

Praxes

Agora que a pretexto da tragédia do Meco, se voltou a falar de praxes e da sua irracionalidade, que é tanto maior quanto menos tradição têm as escolas onde são praticadas, recordo os meus tempos de universidade. Foi em Novembro de 1970 que entrei no IST, e nessa altura as praxes era tradição de Coimbra, não me recordo de em Lisboa haver qualquer desses espectáculos circenses à força, que hoje chamam praxes, nem no Porto, únicos locais onde na altura existiam Universidades. Recordo no entanto o meu primeiro dia do Técnico. A praxe foi uma prova de fogo mas à séria. Já conto.
Cheguei ao IST logo de manhã, e pelas paredes exteriores do Instituto estavam pendurados cartazes que diziam "Abaixo a Repressão", "Abaixo o fascismo", etc, escancarados para o exterior. Estávamos ao que soube depois numa vaga de encerramentos de algumas associações de estudantes, coisa que se fazia sem pré aviso, nem autorização de nenhum tribunal. Entrámos, mas  os novatos, após uma ou duas aulas fomos convocados para uma reunião na AEIST, onde vi pela primeira Mariano Gago, presidente da associação de estudantes. Essa reunão visava fazer a "praxe" de informar o "macacal" do que se passava na Universidade de Lisboa. Durante a reunião fomos informados também que a policia de choque tinha cercado o Instituto e exigia que todos os cartazes colocados no exterior fossem retirados, sob pena de invadirem a escola e retirarem pelas suas mãos, e dar umas bastonadas, ou mesmo prender alguns dos "agitadores", isto é, nós caloiros, no primeiro dia de escola. Comentava com os meus botões, "está a começar bem". Braço de ferro, uns não queriam tirar, outros insistiam, e acabaram por encerrar os portões, ninguém entrava nem saía, e lá estávamos nós a ser "praxados" mas o Dux, era o capitão Maltez, temido chefe da Policia de Choque. Chegou o almoço, nada se alterava, a estudantada não cedia, e nós os caloiros cada vez mais à rasca, pois os outros já estavam habituados a estas andanças, a que eu proprio depois me habituei. Tudo terminou com a polícia a arrancar os enormes cartazes, não identificou ninguém, embora tivesse entrado para falar com o director, na altura o Prof Frausto da Silva, e pelas 15horas, levantou o cerco e aí pudemos regressar a casa. A partir daí todos os caloiros fizeram a sua "integração", e eu próprio vi os sinais do que, não desconhecendo, nunca tinha visto ao vivo, o "rosto da repressão" num país autocrático e sem liberdade. Grande praxe, melhor que "rastejar com pedras presas nos pés" ou "passear colheres de pau ridículas". No final não morreu ninguém, e saímos mais conscientes, hoje até se morre e sai-se mais humilhado destas praxes idiotas !!!