sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014
Ruela
Uma rua fica sempre bem numa parede, sobretudo se for de uma vila de que gostamos, se o céu estiver cinzento a prometer chuva, e melhor se tiver as cores azul e amarelo. Uma receita, que falha todos os dias, pois os gostos não são normalizados, e ainda é preciso que pelo menos esteja bem feita. Fica aqui um exemplo de uma rua com as características indicadas para gostos normais. Afinal o que é uma rua senão uma passagem para o "outro" lado. E é esse o lado que interessa !!!
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
Exposição "Pintura Solidária"
É o contrário de pintura "solitária", e trata-se um grupo que animei entre Maio e Dezembro de 2013, e cujos proveitos, poucos, reverteram para a Loja Social. Agora entre 3 e 20 de Março pode-se ver na Biblioteca Municipal, em Ourique, a apresentação de trabalhos feitos pelos participantes. Todos são iniciados, e são os seus primeiros trabalhos, e o próprio animador também é apenas um artesão iniciado, que procura ocupar o seu tempo de forma positiva. O que é que se pode ver ? Pintura em tela feita pelos participantes, em pano por uma das participantes, telas minhas que exponho e cuja hipotética receita vai para fins sociais, e telas de uma pintora convidada, para que possamos ver algo de diferente, sendo que a convidada é a Clara Andrade, de que já aqui falei e que vem de uma exposição na Casa Manuel Teixeira Gomes em Portimão, excelente pintora e pessoa de uma enorme sensibilidade artistica. Na imagem deixo uma prova do que digo.
O meu 25 de Abril (3)
Quando a dúvida se instala a resistência começa, mesmo a simples resistência mental. Ficamos abertos a outras visões, a outras leituras, e a minha passagem pelo IIL, Instituto Industrial de Lisboa, durante apenas um ano, marcou essa diferença. O IIL, embora fosse aquilo a que se chamava um "curso médio", que dava acesso a ser "agente técnico de engenharia", funcionava em muitos aspectos como as universidades e era envolvido nas suas lutas, nas mesmas leituras da situação política, pelo que foi um ano de acelrerada formação política para mim. As condições da escola eram deploráveis. Funcionava num velho edificio meio arruinado, tinha um pátio enorme onde se construiram anexos em "platex", que estavam cheios de alunos, chovia no interior, laboratórios quase não havia, nas salas de aulas, os profs, em geral apenas o eram em part time, e as aulas eram um debitar de matérias, para as quais não havia "sebentas", pelo que as aulas eram uma espécie de ditado, e nós limitavamos a tirar notas. A insatisfação era enorme, caldo de cultura para a revolta. Todas os dias eramos matraquilhados com invasões das aulas, para convocar uma RGA, uma greve, informar as últimas da "repressão estudantil", ou dar notas da "guerra colonial". Não queria passar ao lado disso, mas tinha apenas 15 anos, e comecei a ver que esta não era uma escola para mim. Não tinha nem maturidade nem preparação. Eram raros os estudantes que tinham entrado como eu, apenas com o chamado 5º ano do liceu. A maioria tinha o curso industrial mais dois anos de preparatórios pelo que tinham mais de 18 anos. Tudo era confusão, improviso e mal estar !!! Dali, de qualquer forma não se saía da mesma maneira como se tinha entrado. E isso aconteceu comigo. Mas não iria sair sem o melhor ter acontecido, E aconteceu mesmo, e eu estava no sitio certo para ter noticias acerca de um evento de grande dimensão e que quase passou ao lado deste país triste e cinzento. Deixo uma musica desse ano, de um autor que lá me foi "apresentado" e que jamais ouvira na Emissora Nacional ou noutro lado, de seu nome Adriano. Só podem ouvir, a imagem é negra como era Portugal em 1968.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Loira
Depois do "mister blue eyes, do preto, do monhé e do careca", agora temos uma loira, sei que estou a ser politicamente muito incorrecto. Ainda por cima de nome impronunciável, experimentem, Isabelle Vansteenkiste (ufff !!!!), e representa o BCE na troyca famigerada, agora que está de saída. É belga e substitui o dito careca, que era o senhor Rasmus Ruffer. Os nomes pouco interessam e a cor do cabelo ainda menos, agora as políticas que defendem refinam, ao contrário do que parecia pois os governantes nem duvidam que o país está melhor. Terão razão em não dar rédea curta, e manterem a tensão ? Nem sei, pois estes políticos já mostraram do que são capazes quando deixados á solta, agora prefiro uma loira apresentável a um careca sempre de agenda na mão. O resto não é questão de género !
O meu 25 de Abril (2)
Antes do 25 qual era a consciência que tinhamos daquilo em que se vivia ? Era a guerra, a censura, a repressão, a ausência de liberdades, mas até que ponto tinhamos essa perceção, até que ponto isso nos incomodava vedadeiramente ? Creio que tirando uma muito pequena minoria esclarecida, para a esmagadora maioria tudo se passava com normalidade, a chamada "paz dos cemitérios". Mas como vivendo nas trevas se chegava à luz ? Cada um teve o seu momento, o clique que o fez perceber o que se passava, e nada era aquilo que parecia. Para mim, talvez o dia 25 de Novembro de 1967, e seguintes tenha sido o dia em que a escuridão na minha cabeça recebeu os primeiros raios de luz. Tinha feito 15 anos, e tinha há poucos dias entrado no Instituto Industrial de Lisboa, na Rua de Buenos Aires, equivalente ao actual ISEL. O choque era enorme. Havia uma Associação de Estudantes, distribuiam comunicados que falavam de coisas que conheciamos, mas a que chamavam outros nomes, por exemplo "guerra colonial", " ditadura", "fascismo", entre outros vocábulos desconhecidos para os meus ouvidos de adolescente imberbe. Cartazes, mini comicios, e intervenções nas aulas mostravam um ambiente insólito para um "menino" saido do Liceu de Oeiras, onde tudo era equilibrio, paz e um pouco de musica pop. Por ali era mais duro. Na noite de 25 de Novembro de 1967 aconteceu um terrível acidente meteorlógico que mudou a minha maneira de ver. Uma chuva intensa, enxurradas, e destruição na zona de Lisboa varreu milhares de casas construidas em leitos de cheia, em zonas clandestinas, e arrastou consigo oficialmente cerca de uma centena de pessoas. Os estudantes do IIL mobilizaram-se para apoiar, eu não fui, tinha muito medo de me meter em confusões, mas segundo os relatos que eram feitos na Associação, a situação era dramática, e a grande preocupação do Governo da altura, ainda com Salazar, era de esconder o que se passava, de minimizar os danos, de impedir a ajuda se necessário, se tal permitisse impedir a informação. O país não podia duvidar da qualidade da "governança" apenas por umas "centenazitas" de mortos. No final diversos comunicados mostravam que as coisas não eram como vinham nos jornais, censurados, e ainda hoje fica por saber qual o verdadeiro impacto (falava-se em mais de 700 mortos). Eu que acreditava nos jornais, na rádio, na TV não, pois não tinha televisão, vi ali a derrocada de muitas das coisas que tinha como certas. E quando aquilo que temos como certo começa a ruir instala-se o "caruncho" da dúvida. E foi aí que se instalou e passei a duvidar do que lia, do que ouvia, pois sabia que podia haver outra versão. Habituei-me a duvidar. E quando a dúvida se instala, tudo na nossa cabeça se começa a abrir para a mudança. Afinal um simples acontecimento meteorológico terá sido o início do "meu 25 de Abril". Noticias do acontecimento aqui.
Paco de Lucia (1947-2014)
Grande guitarrista espanhol, talvez o maior de todos, o flamengo foi a sua praia, mas o seu mar espraiou-se por muito mais longe, pelo jazz, e outras músicas, regressando sempre às suas origens, cigano, manteve sempre essa ligação tornando os seus concertos numa festa, uma verdadeira festa cigana com um dos maiores músicos do mundo. Paco estará para o flamenco como Piazzola para o tango, Paredes para o fado, Jobim para a MPB, foram todos muito mais longe. Dele tenho vários CD´s que ouço quando estou triste, a Andaluzia está lá toda. Além do mais era um excelente compositor. Morreu hoje e morreu demasiado cedo.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
O meu 25 de Abril
A partir de hoje, 25 de Fevereiro, faltam dois meses para o 25 de Abril, quando comemoramos quarenta anos sobre essa data mítica. Vou procurar recordar aqui "o meu 25 de Abril", pois todos os que o viveram como eu vivi, têm a sua "narrativa", como se diz agora, com a periodicidade que me fôr possível. O meu 25 de Abril passa-se nos meus 22 anos, mas tem raízes um pouco antes, e ramos muito para além, até hoje. A forma como o vivi, a maneira como me tornou naquilo que sou, como se passaram aqueles tempos, e como os tempos geraram novos tempos, e que nos conduziram até hoje. Não quero ser muito ambicioso, apenas dar um testemunho "pessoal e transmissível" na exacta medida do que puder. Fica a imagem que mais associo ao 25 de Abril.
Insistência
Se uma imagem vale mais que mil palavras, mil imagens valem mais que uma imagem. Daí a minha insistência nesta imagem de uma igreja com luz ao lado e a correspondente sombra. Para já ficamos assim.
Cores
Visitei hoje uma exposição de pintura aqui na Biblioteca Municipal em Ourique "Cores da nossa terra", muito boa e de um pintor local que assina como Jago, iniciais do seu nome. A maioria são telas com inspiração na vila de Ourique, e onde as cores do Alentejo estão presentes em telas de grande dimensão (a maioria delas). Para a imagem escolhi talvez a menos alentejana das telas apresentadas, em termos de imagem, embora as cores estejam lá. Chama~se "Cidade ao entardecer" e é bem a imagem da noite que se anuncia. Vale a visita e ainda está até final da semana.
segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014
Ondjaki
Acabei de ler "Os transparentes" de Ondjaki. Não tinha lido nada do autor angolano que ganhou o Prémio Saramago em 2013, e digo que foi um dos livros mais interessantes que li nos ultimos tempos. Poderia desanimar com as mais de 400 páginas, mas não, é de uma leveza de leitura, uma escrita temperada, um humor corrosivo, mas ao mesmo tempo ingénuo, ao tratar da vida de um grupo de personagens que têm entre si o facto de todos viverem no mesmo prédio, na mesma aventura de sobreviver todos os dias, de encontrar um esquema, uma forma de contornar os que apenas funcionam a troca de um "matabicho", cada um á sua dimensão claro, um político corrompe-se pela cedência de uma concessão de água canalizada, um chefe da polícia por um "bife com batatas fritas , mas com ovo mal passado". Como em todos os grandes escritores angolanos o tema é a sua grande pátria e seus habitantes, todos os dias espoliados por uma clique, num país onde tudo abunda, mas é para muito poucos. De ler.
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