segunda-feira, 3 de março de 2014

Exposição

Entre hoje e o dia 20 de Março na Biblioteca Municipal, exposição dos trabalhos produzidos no atelier de pintura que fui animando entre Maio e Dezembro. Estão também algumas pequenas telas minhas, bem como um conjunto de telas da Clara Andrade. Deixo aqui algumas fotos, hoje apenas mostro as de que sou autor, em próximos post mostrarei outras. Acabou por ficar engraçado, embora talvez com excesso de material, mas o meu receio era de que houvesse pouco para expor.

O meu 25 de Abril (7)

Pois para que a música pudesse ser divulgada a rádio era fundamental. Aí as portas estavam quase sempre fechadas, pois os programas de rádio, resumiam-se áquilo que a censura permitia, e não havia grande abertura. Mas a partir de 1968, com o advento do chamado "marcelismo" começaram a aparecer algumas "brechas na parede", o que permitiu que alguns autores, caso de José Afonso, acabassem por se tornar mais conhecidos e acessíveis, graças ao esforço de alguns radialistas mais ousados. Sem injustiça para os restantes quero aqui salientar um programa de rádio que a partir de 1968, e até 1972 se tornou para mim referência, pois ouvia todos os dias sobretudo nos anos de 1969 e seguintes. Falo de "Página 1", que passava na onda média da Renancença, ás 19h30, na altura o RCP já tinha o FM estereo, mas eu não tinha rádio com FM, só mais tarde, eram luxos a que não nos podiamos entregar. Mas voltando ao "Página 1", primeiro com Jorge Schnitzer, depois mais tempo com José Manuel Nunes, Luis Paixão Martins, era um misto de programa musical e informativo, onde colaborou Adelino Gomes e até José Duarte. A parte musical era sempre no limite, lá passou José Afonso, Fausto, no inicio, Adriano, Luis Cília, Manuel Freire e a sua "Pedra Filosofal", José Jorge Letria, José Mário Branco, Sérgio Godinho, todos no inicio, os açoreanos Duarte&Ciríaco, Paco Ibanez, os tão falados Aquaviva, grupo espanhol muito bom, passaram Manolo Diaz, que acabei a ver ao vivo no Villaret, ou Patxi Andion e Juan Manuel Serrat, para não falar de Brel, e sobretudo Leo Ferré. Era uma produção de luxo para a altura, e ainda hoje seria um belo programa de rádio. Faria inveja. Não admira que certos autores se sentissem incentivados a produzir, ao saberem que havia quem arriscasse usar as brechas na parede para dar voz a esses autores. "Página 1" tinha o genérico dos "Pop Five Music Incorporated", banda do Porto, onde inicialmente estavam David Ferreira e Tó Zé Brito, sendo mais tarde integrado por Miguel Graça Moura. O grupo compôs esse genérico para o programa, mas mais tarde foi publicado e editado em vários paises com o título "Page One" com algum sucesso. A parte informativa incluía reportagens sobre temas aceitáveis, sempre numa perspectiva progressiva. Mas como tudo o que é bom sempre acaba, "Página 1" terminou em 1972, ainda antes do 25 de Abril, tendo sido proibido pela direção da RR, sempre na lógica de auto-censura, depois de editar uma peça acerca do massacre dos Jogos Olímpicos de Munique, em que foram mortos vários atletas israelitas, e em que o programa, associava esse massacre a uma luta dos palestinianos em que eles também tinham sido massacrados, expoliados e retirados das suas terras quando se formou o estado de Israel, o que era a pura da verdade, malgrado o lado dramático das mortes ocorridas. Foi a gota de água. Sei que ainda regressou mais tarde mas não sei nem como nem quando. Podem ouvir o genérico na imagem que deixo, é uma pérolazinha do final dos 60, e é "português aqui". "Página 1" faz parte definitivamente do meu 25 de Abril, quanto a José Manuel Nunes seu grande animador, para mim evaporou-se.

domingo, 2 de março de 2014

Municipio

Esta rua fica em frente do municipio, como todos os ouriquenses sabem, e os filhos adoptivos também !  Vê-se a sede com as suas bandeiras hasteadas pois hoje é domingo, e ao domingo há frango assado, e a bandeira é hasteada. Também devia ser na próxima terça mas não, nem feriado nem tolerância de ponto. Para mim "no problem", é feriado todos os dias, ou é dia util todos os dias, pois para este desocupado todos os dias faço aquilo que mais gosto. Que sorte !!!

O meu 25 de Abril (6)

  O ano de 1968 ficaria ainda marcado para mim, embora só um pouco mais tarde, através da rádio o viesse a descobrir, pelo lançamento do LP, na altura assim se chamava, long playing, ou um 33 rotações, de um autor, que durante esse ano de Instituto me seria apresentado, e de que nunca ouvira falar antes, um tal Dr. José Afonso, do qual o meu amigo me emprestou um EP (extended playing ou 45 rotações), que continha O Coro dos caídos, Ó vila de Olhão, e esse LP chamou-se "Cantares do Andarilho". Na altura a rádio era dominada pela música a que se chamava nacional-cançonetismo, Calvário, Artur Garcia, Madalena, o Fado, Fernando Farinha, entre  outros, a música italiana, Gianni Morandi, ou já um pouco de música de expressão anglo saxónica. O tipo de música portuguesa fora destes estereótipos não existia, ou se existia não era transmitida. Não se corriam riscos, pois um locutor de rádio não tinha liberdade para pôr um disco fora da "caixa", e a censura não dormia, e estendia a sua longa mão a todos os cantos, e sobretudo contava com a auto-censura. Daí a canção dita de intervenção, o que na altura se viria a chamar "os baladeiros", não tinham expressão publica nem sabiamos que existia !  "Cantares do Andarilho", um disco de pendor tradicional ou popular, mas com um conteudo politico quase explicito, veio dar essa expressão. O tom utilizado por José Afonso nos seus primeiros LPs de maior expressão, acabou por ser uma rampa de lançamento para toda uma geração, ao que sabemos agora, Tinham-me oferecido um gira discos usado no ano anterior, mas não havia dinheiro para discos, muito menos LP que custavam 180 escudos, e se  houvesse seria para alguma coisa anglo saxónica, Beatles, Stones, Bee Gees ou outros. O disco de Jose Afonso, que já gravava desde 1953, ou seja há 15 anos, seria um sucesso, e conseguiu romper aos poucos o muro de silêncio das rádios, com o pretexto de ser "musica folclórica" ou "tradicional",pois assim se encarava o Natal dos Simples, a Senhora do Almortão, o Resineiro Engraçado, que começaram a passar em algumas rádios, sobretudo no RCP ou na Renascença. O problema é que a forma como cantava, como pronunciva as suas letras, como as tornava numa performance, transformava em canção revolucionária até o vira do Minho, o que devia deixar os censores baralhados, estúpidos que eram !!! Mas lá pelo meio estavam Vejam Bem ou Chamaram-me cigano, mais explicitas e destinadas a causar problemas a quem as passasse. Mas passaram.

sábado, 1 de março de 2014

Voz

"Não conhecia nem nunca me foi apresentada" como diria alguêm. Descobri no canal Mezzo e é espectacular, a cantora de jazz sul coreana Youn Sun Nah, com uma voz poderosa e uma capacidade de improviso rara. De 44 anos já era tempo de a ter ouvido, mas não. Fica aqui um... momento mágico, para quem gosta deste tipo de musica.

Acesso

Este o acesso ao miradouro em Ourique. Por aqui se sobe por aqui se desce, mas é preferivel ser um carro de cada vez, sim de carro, a pé já não vou lá. É uma rua colorida, afinal a mesma de uma tela anterior, onde fica a esquina mais bonita. O património construído interessa-me e há coisas muito belas por estas vilas e aldeias, muitas desprezadas, outras valorizadas. Há muito onde o olhar se agarre. Basta saber ver.

Lugares

Este é uma das telas da Clara Andrade que estará na exposição na Biblioteca Municipal a partir de 3 de Março. Gosto particularmente dela, e faz parte de uma série de lugares que ela bem ilustra. Um lugar é o ponto geográfico, físico ou emocional em que algo acontece. Onde nada acontece estamos em "nenhum lugar", e onde o que acontece só destrói aquilo em que acreditamos, aquilo que nos deviam estimular, aquilo que nos devia fazer andar em frente, então estamos num "anti-lugar", um "buraco negro" que tudo atrai, tudo come, tudo absorve sem estar jamais saciado, nisso se está a transformar o nosso "lugar". Prefiro os lugares mais artisticos !!!

O meu 25 de Abril (5)

Estavamos ainda no ano de 1968, e o Maio prolongou-se por mais alguns meses de agitação, até que a "França profunda" recupera do susto. A minha passagem pelo IIL também não se prolongaria, não me adaptando à  "bandalheira" que era o seu sistema de ensino totalmente obsoleto. Estava decidido, iria voltar ao  Liceu de Oeiras, completar o 7º ano e depois se veria. Mas o ano não terminava por aqui, e uma grande surpresa estava reservada. E essa surpresa esta ligada a uma simples peça de mobiliário, uma cadeira. Foi no dia 3 de Agosto de 1968, já estávamos de férias, ía-se à praia na Costa da Caparica, ouvia-se rádio, entretanto a televisão a preto e branco apareceu lá por casa, mas a programação começava às 19h30 e antes da meia noite, o hino nacional e a bandeira verde e rubra, ou para ser mais exacto, cinzenta clara e cinzenta escura, fechava a emissão, depois de umas notícias banais acerca de inaugurações, desfiles de moda, e discursos de ministros em cerimónias de abertura ou encerramento, e a evocação inevitável dos séculos de História e da grandeza do país, sempre bem, contra outros regimes, negros, comunistas ou social democratas, sempre mal e sem visão do mundo. Íamos neste rame-rame, até que nos dia 3 de Agosto, um comunicado oficial, indicava que um acidente sério tinha ocorrido com o "senhor presidente do conselho". Que estava internado e que amanhã haveria um boletim médico. Surpresa geral ! Durante semanas, manifestações de consternação, visitas de autoridades, artistas, povo preocupado com o "estado de saúde do senhor presidente do conselho". Na altura tudo se tratava através de comunicados oficiais, o que não estava nos comunicados não existia !!! Mas quando havia comunicado havia problema. Era o caso, embora ninguém soubesse com verdade o que se passava no Hospital da Cruz Vermelha onde "sua excelência", como era referido na TV, estava internado, a realidade é que tudo indicava que estivesse mal, após queda de uma cadeira, no forte da Barra, em S.João do Estoril, onde passava férias. De resto ninguém notava nada. Nada se dizia, para além de umas referências breves na notícias. Se algo se passava nos bastidores, os portugueses não sabiam, e eram os "mentideros" que referiam que poderia ser mais grave. Durante cerca de dois meses, só a 27 de Setembro seria substituido por Marcelo Caetano, não havia primeiro ministro, mas também não se sentia a falta. De resto tudo normal, até que o "mais alto magistrado da nação", Américo Tomás, fala à nação, e informa que iria substituir o "senhor presidente do conselho", e nos apresenta o Prof. Marcelo Caetano. Para os portugueses tanto fazia, a política não era assunto que lhes dissesse respeito.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Porquês

Afinal não vamos aos mercados apenas para "vender" dívida, forma eufemística de dizer que vamos pedir emprestado. Não, nada disso, agora vamos "comprar" dívida, ou seja amortizar dívida, a quem nos quiser vender. E comprámos mesmo 1,3 mil milhões de euros, embora pareça que todos esperavam que houvesse muito mais gente interessada nesta venda, só não nos venderam porque acham , e com razão, que ter divida de Portugal é um grandessissimo e belissimo negócio !!! . E porquê comprar? Porque tínhamos dinheiro a mais !!! Mas então se tínhamos dinheiro a mais porquê cortar nas pensões e aplicar a CES, cortar nos salários acima da fortuna de 600 euros ? Devo ser muito estúpido, para entender estas nuances ...

O meu 25 de Abril (4)

E aconteceu ! O Maio de 68, aconteceu nesse ano em que estive no barracão da Rua de Buenos Aires. Se ali não estivesse teria sabido do que se passava o mesmo que a generalidade dos portugueses, isto é, nada !!!  Ali no Instituto o Maio de 68 foi acompanhado com muita informação, embora eu, através de um colega com quem travei amizade e de cujo nome nem me lembro, mantinhamos conversas sobre o assunto. O que acontecia em França em 68 quase não era referido na imprensa, e na rádio ou televisão nem pensar. Era uma não notícia, ou apenas passou a notícia quando já no final o General De Gaulle passou ao ataque e convocou uma grande manifestação de apoiantes que o confirmaram no poder. Isso sim foi largamente publicitado. De resto havia a informação disponível no Instituto e pouco mais. Para um jovem de 15 anos como eu, acabado de entrar num mundo bem diferente do que julgava tudo aquilo me parecia estranho, e nada parecia fazer sentido. Porque se manifestavam se já tinham o que nós nem sonhávamos vir a ter. Reinvidicavam o impossível ? Diziam "Sejamos realistas exigemos o impossivel" ou "É proibido proibir!" Porquê? Claro que a informação chegava atrasada e  pouco detalhada, sabia-se da revolta dos estudantes, do apoio da classe operária, a partir de certo momento, mas não se perspectivava o seu significado, não havia comentadores políticos, ou os que existiam, Artur Anselmo ou João Coito, lembro-me ainda deles, eram totalmente fascizantes e os seus comentários eram louvaminhas ao poder da altura, só assim podia ser e assim era, e este era assunto tabu ! De resto, nós sabíamos que aqueles acontecimentos se passavam no outro lado do  mundo, e o nosso era outro, jamais Portugal chegaria a um nível de liberdade que permitisse tais desatinos, políticos, sociais, culturais e de valores, pois o movimento de Maio, embora perdido no domínio político, até por que era dirigido por maoistas, trotskistas, anarquistas (sei-o agora...), tendo um olhar desconfiado da esquerda comunista, teve um enorme impacto nos valores e na cultura. O mundo nunca mais foi o mesmo, e até Portugal não fugiu à regra, mas teve de esperar uns anos...