sábado, 10 de maio de 2014

Terraço

Dois fins de semana, um deles alargado, passados no hospital ainda servem para valorizar o meu terraço neste fim de semana de sol. Certo que agora lido mal com o sol, que quase me tira a visão por completo, mas o sol não tem culpa, pois até a luz do ecrã do computador me encandeia... é triste a oftalmologia deixar alguém chegar ao estado em que vou entrando pouco a pouco, e Deus sabe qual o limite. Mas deixemos as queixas e voltemos a terraço onde este vaso de rosas pequenas, anãs ou como lhe queiram chamar florescem. Foi oferecido há muitos anos e vai sobrevivendo às intempérides, para renascer na primavera como se nada fosse, e agora até me faz companhia na solidão da planície, onde pouco parece passar-se. A casa, o terraço e as flores abrem janelas numa vida que tende a tornar-se pouco suportável, são estas pequenas janelas por onde entra uma réstea de luz que ocupam a mente, e rompem o isolamento. Ainda bem que existem.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

SNS ( versão pós-troyca), uma crónica pessoal

Após esta estadia pelo hospital público a que chamo "a minha segunda casa", e onde sou sempre muito bem tratado pelo pessoal, pois sou um utente "fidelizado" há sete anos, devo confessar que estamos já perante algo diferente, com as medidas que não ferindo o essencial da função hospitalar, atingem o conforto dos doentes. É a saúde pós-troyca. Vejamos alguns exemplos. Começamos pela manhã, ao tomar banho temos de nos limpar a lençóis da cama, pois não existem toalhas, e preparar para procurar gel de banho que escasseia, e nos banheiros a falta de renovação transforma-os em "piscinas", pois a água escorre para fora, e desleixo gera desleixo, o desleixo dos utentes acaba por tornar tudo numa enxovia. Assim melhor tomar banho cedo, levar gel de casa e pedir à familia toalhas de banho. Já agora comprar uns pijamas, pois os que fornecem vieram da prisão de Alcoentre... A meio da manhã acabaram com um iogurte que era fornecido pelas 11 horas, assim comida só ao almoço. Apenas se exceptuam os diabéticos ( me !!! que sorte...) que mantêm este "casse-croute". O pessoal corre dum lado para o outro, pois houve reduções, mas mais do que isso é nitido que a desmotivação impera, o que em alguns afecta o desempenho, com impacto no doente. Têm de dar a cara por decisões que os ultrapassam. Felizmente não faltam medicamentos, nem equipamentos, mas falta "alma". Os medicamentos hospitalares que se trazem para casa, como no meu caso, só são dados para um mês, o que implicaria deslocações, dispendiosas para quem mora longe. Claro que a acção gera reação, e eu que já sou "rato hospitalar", encontro sempre estratégias para contornar estas "pedrinhas na engrenagem", que provocam o efeito contrário ao pretendido por estes que vêm a gestão da saúde como a "gestão de uma fabrica de sabonetes". Mas o essencial salva-se, os cuidados de saúde são bons, e os exames fazem-se sem restrições, falo por mim que neste periodo fiz duas ecografias, um TAC, um Dopler, um cateterismo (onde sofri como um cão...), um ecocardiograma, um RX, um ECG, e muitas dezenas de análises. Fiquei de "papo cheio", espero que a troyca não saiba... assim a saúde pós-troyca é igual à outra, mas em versão "desconfortável", esperemos que fique só assim !!!

Regresso a casa

Após duas semanas e tal de internamento cá estou de novo. A sensação é estranha pois em  muitos aspectos sinto-me pior, nomeadamente a visão que se degrada. Escrever este post é dificil, coisa que há quinze dias não o era da mesma forma. Os edemas nas pernas quase desapareceram, mas na face e olhos permanecem, perturbando a função já degradada por cataratas que aguardam intervenção, que não se deve fazer devido a inflamação permanente nos olhos, e não se pode por falta de disponibilidade. Enfim problema meu e do SNS. O sol no Alentejo está intenso e melhor alguns minutos deste sol do que dias estendido na cama do Hospital, a viver ou assitir ao dramas dos outros, o que nada ajuda a suportar os próprios. Tive a ajuda da minha filha para o regresso a casa, muito apreciada por mim, pois é bom conhecer o interesse da familia, curta, mas é a que tenho. Aqui estou bem, desde que não se sinta risco, e agora não o sinto, apenas sofrimento sem risco. Tudo bem, há que expiar as penas, e Deus guarda-nos mensagens muito fortes, para nos mostrar e de certa forma antecipar, o juizo que faz de nós. Não sendo religioso, era mais fácil se o fosse, acredito numa força qualquer que movimenta aquilo que nos vai sucedendo, Lego gigante em que nos encaixam, sendo a doença aquela pedra que destoa da perfeição. Regresso a casa, o banco ficou outra vez ocupado, obrigado a quem por palavras, pensamentos ou actos se preocupou, e desculpem lá a filosofia.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Ainda maior ausência

Dado que vou ficar sem computador durante alguns dias, por internamento na minha "segunda casa", a partir de amanhã até, não sei dizer, talvez 5 ou 6 dias para exames. Mais tarde se verá. Assim será "o meu 25 de Abril" quarenta anos depois, será passado no hospital.  Já estou habituado e quando se sente o risco por perto é o melhor sítio para estar. Antes isso do que na prisão, não é ?

sábado, 19 de abril de 2014

Ausência

Desde segunda feira até hoje, uma longa ausência com visita à minha "segunda casa" e alguma indisposição e indisponibilidade associada ao fim de semana "santo" em que estamos virados para outras coisas mais terrenas, apesar da santidade dos dias. Basta ter visto um pouco de televisão para nos apercebermos que o grande tema do fim de semana de Páscoa é a comida. Doçaria, borregos, cabritos, assados, estufados, amêndoas, chocolates, doçaria regional, folares, esta a temática que entra pela casa a dentro de um país com alguma fome, poucos rendimentos e muitos diabético. Chega a ser tortura assistir a tal despautério. O consumo também chegou ao fim de semana pascal, como já tinha tomado conta do Natal. Uma ausência que termina aqui, mas será retomada na próxima semana pois já tenho estadia marcada por uns dias num hotel em S.Marta.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O meu 25 de Abril (40)

Saiu em 1967 comprei em 1972 (a edição que está na foto e ainda guardo), na Livrelco, onde de vez em quando emergia da profunda escuridão e via a luz funesta da ditadura. Trata-se de O canto e as armas de Manuel Alegre, é o Livro dos tempos do fascismo, e contém todos os cânticos que fizeram a liberdade, Este por exemplo. Boa parte estão na antologia que saiu agora. Mais vale tarde do que nunca.

As mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
Com mãos tudo se faz e se desfaz.
Com mãos se faz o poema – e são de terra.
Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
Não são de pedras estas casas mas
de mãos. E estão no fruto e na palavra
as mãos que são o canto e são as armas.

E cravam-se no Tempo como farpas
as mãos que vês nas coisas transformadas.
Folhas que vão no vento: verdes harpas.

De mãos é cada flor cada cidade.
Ninguém pode vencer estas espadas:
nas tuas mãos começa a liberdade.

domingo, 13 de abril de 2014

Regresso a Alcarias

Infelizmente não se trata de um regresso fisico. A saúde está a tirar-me a vontade de ir por aí, e levanta-me muitas dificuldades dificeis de descrever sem cair na queixa e na lamúria. No entanto restam os esboços e as fotos e voltei ao tema das chaminés. Penso que já fiz algo de parecido mas não me recordo nem tenho comigo. Fica aqui mais um registo desta localidade tão bonita.

sábado, 12 de abril de 2014

O meu 25 de Abril (39)

A lista de livros "fora do mercado" era enorme, alguns eram os autores que eram banidos, independente do que escrevessem, outros casos eram temas inabordáveis, caso da guerra colonial, ou então os livros eram retirados pelo seu conteudo. Editoras e livrarias eram vigiadas e as rusgas e apreensões eram frequentes, mas muitas vezes encontrava-se aquilo que queríamos debaixo dos balcões ou guardados para certos clientes. Também a visita aos alfarrabistas permitia encontrar muitas obras proibidas. Eu por exemplo visitava muito o "Ás do Livro", nas Escadinhas do Duque, junto à Estação do Rossio, onde se encontrava um pouco de tudo, sendo que os livros retirados do mercado eram novos, embora à venda num alfarrabista. Ninguém percebia bem qual era o critério, pois livros de inspiração marxista, uns estavam à venda outros eram apreendidos, talvez pelo título. Eram tudo uma grande idiotice, e estavamos nas mãos desta gente sem caco !!!  Um local mitico onde encontrava tudo à venda era a Livrelco, uma "cooperativa livreira de universitários" de que era sócio, e onde encontrava livros cientificos para estudar, mas sobretudo muitos dos livros proibidos, pelo que ali as visistas da PIDE eram frequentes, ao que parece tinham locais onde guardavam os livros e mudavam de local com frequência. Mas esta porta em breve iria fechar-se, pois foi encerrada pela PIDE no inicio de 1973. A partir daí tudo se tornou mais dificil. De qualquer forma o avanço do marcelismo tornou as editoras mais corajosas, e a quantidade de livros a proibir já era tão grande que era dificil controlar. Apareceram novas editoras como a Estampa, a Afrontamento, a Nosso Tempo, que se juntaram à D.Quixote, Seara Nova, que procuravam editar livros que nunca chegariam ao publico sem um pouco de arrojo. O meu 25 de Abril não seria o mesmo sem estas leituras.

Nervosa

A presidente da Assembleia tem aparecido em comentários televisivos entre duas portas e um corredor sempre apressada e nervosa o que não é bom conselheiro. A forma como está a gerir as comemorações dos 40 anos do 25 Abril na AR é negligente. Afinal porque razão os militares que trouxeram a democracia ao país não podem falar na sessão comemorativa do 25 de Abril ?  Ainda não foi dada uma explicação convincente. Terão medo daquilo que vão dizer, mas nem todos os que vão falar terão a mesma opinião. Isto envergonha-me, e roça a má consciência. Cortar a palavra a quem nos deu o direito à palavra é no minimo uma falta de vergonha.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

VMER

Estas quatro letras iniciais de Viatura Médica de Emergência e Reanimação podem fazer a diferença entre a vida e a morte, e eu sei do que falo pois fui 3 vezes socorrido por estes profissionais e fez a diferença, dado que ainda hoje aqui estou a escrever este post coisa que talvez não ocorresse se nesses dias a VMER estivesse inoperacional. Só se fala quando há um acidente de automóvel e não se é socorrido como aconteceu agora em Èvora mas, por exemplo, naquela noite de Fevereiro de 2009 estava em casa na cama e a arritmia atacou e a morte súbita ficou por minutos. E são muitas as intervenções que estas viaturas e os profissionais que as utilizam fazem todos os dias . Assim o ter esta viatura inoperacional é uma grande perda de eficácia na emergência médica, muito para além do que não assistir a um acidente com impacto mediático. É no dia a dia que se deve notar a falta, pois a reanimação é sempre um problema de tempo e de competência. Ter a tempo meios eficazes, quando deles se necessita é fundamental e nada onde se possa poupar, dispensar ou menorizar. Falo por mim !!!