O campo nem sempre é o que parece. Um domingo no campo nem sempre soa a pic nic, a passeio entre as estevas, a percursos pedestres e contacto com a natureza naquilo que ela tem de mais genuino, livre e selvagem. Muitas vezes estamos aqui junto e nem usufruimos, Domingo por casa, mudanças, limpezas, compras, net, almoço, sesta, telefonema da praxe, conversa simples, sono e canseira, como em qualquer cidade, diferente apenas a sensação de liberdade, o terraço virado a nascente donde se pode ver o nascer do sol, e conhecer o sabor da sombra no final da tarde. Entre o campo e a cidade somos nós que fazemos a diferença. Entre o Alentejo e a Orla do Guaiba tem mais em comum, quando as pessoas têm em comum, pensam em comum ou simplesmente conversam apesar da distância fisica. Domingo é domingo em todo lado, e o sol nasce para todos, embora uns tenham mais calor. Questão de latitudes.
domingo, 22 de julho de 2018
sábado, 21 de julho de 2018
A morte é o prolongamento da vida
Vem ao caso uma pessoa amiga que está a passar por momento dificil, ao contactar com graves problemas de saúde de familiares próximos. A probabilidade da morte é sempre uma experiência complicada. Acredito que cada um tem o seu momento, mas esse momento também depende daquilo que fazemos com nós mesmos. Quando não nos ocupamos dos nossos problemas, testamos os limites, exageramos naquilo que nos é nocivo, ou temos uma conduta que nos prejudica. sabemos que estamos a apressar esse momento. Eu próprio tive de conviver com esse momento de uma forma mais directa duas vezes na vida, e confesso que acompanhar o fim de alguém de uma forma intima é arrasador. Já acompanhar o seu próprio fim me parece mais "aceitável". Passei por essa experiência, embora a luz da esperança nunca se tivesse apagado, e sempre pensei para comigo, mesmo nos piores momentos, que a morte seria um processo natural, não seria apenas um apagão, mas uma transformação noutra coisa. Um prolongamento da mesma matéria, para outra finalidade, e para quem estava muito doente, era o caso, seria quase uma libertação, do sofrimento, da imagem do que causamos nos outros, e da nossa própria imagem quando nos olhamos ao espelho e vemos aquilo em que nos transformámos. Outra coisa que julgo ter entendido é que a morte é um processo solitário. Nada nos adianta a confusão, o drama ou a agitação. Nunca perder a esperança, mas aceitar a dádiva.
Não quero fazer teoria acerca de nada, mas esperança é fundamental, e não são os outros que a trazem, muitas vezes é o contrário, são eles que nos ajudam a descrer.
Não quero fazer teoria acerca de nada, mas esperança é fundamental, e não são os outros que a trazem, muitas vezes é o contrário, são eles que nos ajudam a descrer.
sexta-feira, 20 de julho de 2018
Who kills Nat ?
Havia há muitos anos uma série de que muitos gostaram, chamada "Tween Peaks", na qual o mistério correspondia a saber "quem matou Laura Palmer ?". Na realidade julgo que ainda hoje ninguém, nem o seu autor David Linch, sabe a resposta a este mistério, pois todos tinham motivos para a matar, muitos aprovaram a sua morte, e todos naquela pequena povoação participaram de certa maneira na morte da jovem que apareceu a flutuar num rio meio gelado que a atravessava. Mas que faz aqui esta referência ? Acabo também de assistir ao gradual desaparecimento, não diria morte, de uma personagem virtual, Nat ! Quem era esta personagem ? Era o "alter ego" de uma pessoa real, como sempre no mundo virtual. Mas estas personagens "alter ego" têm a caracteristica de se comportarem de maneira a que através delas se tem uma passagem estreita para o ego que as controla e as mantém vivas, talvez porque esse ego não se quer assumir abertamente, e faz bem, mas tem alguma necessidade de através de outrem compartilhar ou apenas exteriorizar as vivências que não pode, ou não quer, guardar apenas para si. Tem muitas por aí, sendo aliás uma das mais vulgares posturas no mundo virtual, a saber, tomar a identidade de outrem, por vezes mesmo mudando de sexo, idade ou cor do cabelo. Quando esta personagem se torna desnecessária, ou acaba revelando aquilo que não queremos, extingue-se, mata-se, expira o seu prazo. Até pode manter uma vida artificial, o que sempre foi, para que comunique a mensagem que pretendemos fazer passar, e servir de cortina ou apenas cenário. A vida no campo pode ser apenas uma fição, uma manipulação consciente ou até talvez não. É como uma carta que se mete no correio, com destinatário certo mas com uma mensagem errada para que o destinatário acredite.
quinta-feira, 19 de julho de 2018
Certo da incerteza
A incerteza é uma certeza. Como escreveu Fernando Pessoa "eu que não tenho certeza nenhuma sou mais certo ou menos certo ?"
Imagino uma realidade que se passa longe da vista, que se supõe, que se alimenta do sonho, mas aquilo que é não passa de uma realidade imaginada, que se partilha com outras pessoas, mas que se realiza apenas quando a certeza da presença se sobrepõe à ilusão do virtual.
Esta a dificuldade do mundo em rede, quando se entra nela, há que estar preparado para tudo. Para a verdade e para a mentira, para a certeza e para a ilusão, para a posse e para a partilha, para a ingenuidade e para a esperteza, para sentimentos de euforia ou para a frustração. Não há vida real no mundo virtual. Por definição, tudo se cria, tudo se apaga, tudo se partilha, tudo se pode possuir sem se ter nada, na realidade. Mas quem falou em realidade ?
Quem vive a vida no campo, mas nele não tem raízes, tende a reencontrar o mundo perdido através do mundo virtual, sem ter a verdadeira consciência de que uma mão está cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Não ganhamos nem perdemos, apenas somos companhias de passagem para um "mundo de aventura". No virtual tudo é mesmo virtual. O problema é que com tal facilidade acedemos a ele que começamos a tomar a ilusão pela sua materialidade. Daí á decepção é um passo, apenas um pequeno passo para quem não está preparado.
Na realidade a única coisa certa é que tudo é incerto, e melhor acreditar apenas na metade. Mas em qual delas ?
Imagino uma realidade que se passa longe da vista, que se supõe, que se alimenta do sonho, mas aquilo que é não passa de uma realidade imaginada, que se partilha com outras pessoas, mas que se realiza apenas quando a certeza da presença se sobrepõe à ilusão do virtual.
Esta a dificuldade do mundo em rede, quando se entra nela, há que estar preparado para tudo. Para a verdade e para a mentira, para a certeza e para a ilusão, para a posse e para a partilha, para a ingenuidade e para a esperteza, para sentimentos de euforia ou para a frustração. Não há vida real no mundo virtual. Por definição, tudo se cria, tudo se apaga, tudo se partilha, tudo se pode possuir sem se ter nada, na realidade. Mas quem falou em realidade ?
Quem vive a vida no campo, mas nele não tem raízes, tende a reencontrar o mundo perdido através do mundo virtual, sem ter a verdadeira consciência de que uma mão está cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Não ganhamos nem perdemos, apenas somos companhias de passagem para um "mundo de aventura". No virtual tudo é mesmo virtual. O problema é que com tal facilidade acedemos a ele que começamos a tomar a ilusão pela sua materialidade. Daí á decepção é um passo, apenas um pequeno passo para quem não está preparado.
Na realidade a única coisa certa é que tudo é incerto, e melhor acreditar apenas na metade. Mas em qual delas ?
quarta-feira, 18 de julho de 2018
A ida e o regresso
A vida no campo tem destas coisas. É preciso ir e regressar. Aonde ? Lisboa claro, ou outra qualquer cidade pois aqui apenas o essencial está disponível, mas aquelas necessidades pontuais implica sair. Neste caso aproveitei a ida ao hospital, a que chamo a minha segunda casa, para gastar dinheiro nalgumas coisas de que precisava, resolver alguns pendentes, visitar a neta, e procurar o reforço da sua energia. Boa sensação aquela da neta me ver lá no fundo da rampa e vir a correr de bracitos abertos para o vovô, o que mostra bem como o sangue se reconhece como por telepatia. De resto na ida vamos vazios e no regresso trago a energia, apesar do enorme cansaço, que me é transmitido por aquele afecto bom e incondicional como só mesmo o avô comunica. Era o mesmo com o meu avô, e ainda hoje me lembro como me sentava na sua perna como me tornei sportinguista só porque ele o era. No regresso sabe bem reencontrar o meu quadrado, arrumar as compras feitas, colocar os livros na prateleira, comer o pão que ficou esquecido, fechar a gaveta entreaberta, ou abrir as portadas para entrar a luz. Sim há sempre luz à minha espera, uma porta encostada, uma lâmpada esquecida acesa. Uma mensagem para enviar com a mensagem de sempre: já cheguei a casa.
domingo, 15 de julho de 2018
A poeira
O dia de hoje foi dedicado à poeira. Não a dos dias mas a real que entra por portas e janelas, que vem agarrada às botas, que é trazida pelo vento. Quem vive no campo não se liberta dela. E a poeira é natural mas má para um fragilizado como eu. Afinal sou alguém de saúde débil, e de estado permanente de risco, o risco de um homem a quem Deus emprestou um orgão vital para viver. A minha vida está ligada à vida desse músculo que um dia escapou à morte do seu dono/a.
Mas na poeira muita vezes encontro motivos de júbilo. Vamos ver, um livro que aparece e já não via há anos, coberto de pó e que de repente está nas minhas mãos tantos anos depois a dizer lê-me !!! Uma fotografia, ou muitas, que andavam entregues á sua sorte e de repente trazem para os dias de hoje momentos inesperados de recordação. É o caso. Umas fotos em Santiago de Compostela, em 2000, fazem agora dezoito anos, e recordam momentos bons que se viveram por lá, num estranho hotel, com cama virada à janela, uma foto em particular de alguém que sorri, um sorriso carregado de emoção, o que iria já naquela cabeça, afinal a partida estava eminente. De lá prefiro recordar a beleza da cidade, a imponência dos monumentos, o domínio da pedra, a gentileza da companhia. Alguém sorri em Santiago ! A separação estava eminente, mas sorria, como se apenas o dia de hoje contasse. E afinal assim foi. Estava determinado que eu não saberia aproveitar a leveza. Muitas vezes está tudo ali e não queremos ver. A poeira trouxe agora tudo de novo. E o velho fez-se novo afinal.
Mas na poeira muita vezes encontro motivos de júbilo. Vamos ver, um livro que aparece e já não via há anos, coberto de pó e que de repente está nas minhas mãos tantos anos depois a dizer lê-me !!! Uma fotografia, ou muitas, que andavam entregues á sua sorte e de repente trazem para os dias de hoje momentos inesperados de recordação. É o caso. Umas fotos em Santiago de Compostela, em 2000, fazem agora dezoito anos, e recordam momentos bons que se viveram por lá, num estranho hotel, com cama virada à janela, uma foto em particular de alguém que sorri, um sorriso carregado de emoção, o que iria já naquela cabeça, afinal a partida estava eminente. De lá prefiro recordar a beleza da cidade, a imponência dos monumentos, o domínio da pedra, a gentileza da companhia. Alguém sorri em Santiago ! A separação estava eminente, mas sorria, como se apenas o dia de hoje contasse. E afinal assim foi. Estava determinado que eu não saberia aproveitar a leveza. Muitas vezes está tudo ali e não queremos ver. A poeira trouxe agora tudo de novo. E o velho fez-se novo afinal.
sexta-feira, 13 de julho de 2018
Queima das fitas
Final de ano na USCO, Universidade Sénior, uma iniciativa que procura ocupar gente idoso, dar uma vida com um pouco de mais sentido. As minhas classes de pintura acabaram por integrar o projecto com vantagem de ter uma organização por detrás. É de salientar o que estas três pessoas fazem pela sua terra, não se poupando a esforços, procurando fazer tudo melhor, sem retorno nenhum, muito por vontade própria. E muitas vezes não contam com o apoio que mereceriam. Tem sempre gente que critica, que quer mais, outra coisa, sentada nos seus direitos, espera que os sirvam de bandeja. É assim a vida no campo. Aqui também tem pessoas más, arrogantes, e muito pouco reconhecidas. Mas por cima disso tudo se passa, de forma simples, leve, desligando. Este evento em si tem muito significado, pois indica o poder da vontade de quem persiste. Se fosse fácil não tinha graça nenhuma, costuma-se dizer.
quinta-feira, 12 de julho de 2018
Um atelier numa terra de ninguém
Daria o caso para realizar um atelier de pintura em Garvão, uma vila situada aqui próximo, mas na realidade muito longe de muita coisa, nomeadamente das artes e das ideias. As pessoas têm alguma distância e nem sempre são uma simpatia, mas assim longe de muita coisa que nos traz para a qualidade de vida como esperar demais. O reconhecimento é pouco, e muitas vezes penso se valerá a pena, pois ao longo de cerca de dois anos depois de começar o grupo mudou muito, e agora tem pessoas mais simples e melhores pessoas, mais humildes e querendo aprender. Recordo grupo anterior no mesmo local em que quase me ofenderam, ignoravam, e qualquer indicação era mal vista, pois as pessoas tinham-se em grande conta apenas porque se via serem gente com "teres e haveres". Nós gostamos de apoiar, de trazer alguma coisas de nós, mas nem sempre a nossa dádiva é bem recebida. Chegar a dizer que eu recebia dinheiro da Junta da Freguesia e portanto... eu que tudo levo, gasto da minha gasolina, dou do meu tempo sem pedir nada em troca. Enfim a vida no campo nem sempre é tão idilica assim. É que no campo para além de passarinhos a chilrear também há passarões... Na foto alguns trabalhos realizados !
quarta-feira, 11 de julho de 2018
Uma estranha forma de demissão
Tem muita gente que se demite. Alguns andam sempre com uma carta de demissão no bolso, ou com uma palavra de demissão na boca que cospem cada vez que as coisas não são como lhe parecem, ou como gostariam que fossem, independentemente das realidades ou das boas intenções. Agora que demitir seja um acto civico tenho mais duvidas. Um acto de participação solidária, dá para rir. Demitir para perguntar o que sempre se pôde perguntar, apenas porque não se quer ouvir ou não se compreende as respostas, ainda mais. É muito estranha a forma de ver as coisas aqui no campo. Tudo tem uma velocidade, um empenho, uma responsabilidade bem diferente. Verdade, hoje somos reformados e nada pode exigir a visão do passado, mas o passado ensinou-nos a não virar a cara e a lutar para "melhorar as coisas". E as coisas têm de ser melhoradas, encontrar soluções. Vamos virar a cara, passar para outros, falar amanhã... sempre amanhã. E a culpa é sempre dos outros. Nós somos sempre perfeitos, mesmo no que não fazemos. Estranha forma de ... demissão.
terça-feira, 10 de julho de 2018
Mais um ano de actividades
Terminou na segunda feira mais um ano na Aldeia de Palheiros, nas aulas de pintura. Estamos quase em cinco anos de colaboração. Como tal foi possivel, quase as mesmas pessoas, umas saem entram outras, o mesmo interesse. É uma segunda feira diferente para todos. Os quadros, a pintura, são apenas um pretexto para as pessoas conviverem e não estarem sós nem em rotina. Mas estas pessoas têm uma vida, muitas ainda têm marido vivo, mas vêm interessadas e sempre com uma visão boa e positiva. A mim faz me bem. Ocupa-me e ajuda-me. O reconhecimento delas é permanente, activo e bem visivel. É para mim um prazer. Gosto de ir lá e venho sempre melhor do que vou. Este ano tudo decorreu no quadro na Universidade Sénior, mas a realidade permanece a mesma se alteração ou novas posturas. Vale a pena. Tenho evitado introduzir novidade nestas aulas. Por exemplo podíamos fazer óleo mas seria mais dificel e implicava novos materiais, Apenas uma ou outra iria aderir. Melhor deixar estar, veremos como variar um pouco. Na foto a Perpétua apresenta o seu ultimo trabalho.
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