Porquê meditar depois da meia noite ? Rever o dia. Rever o que as pessoas foram para nós durante um dia, o que fomos para elas. O dia foi mal escolhido. Passa uma efeméride triste, e em breve outra passará, quando há dezoito anos decidiste partir e eu nada fiz. Agora apenas uma lágrima rola quando penso nesses dias de Agosto, em que tudo se passou, em que muito coisa desapareceu, coisas que tinha por firmes e boas, e afinal nada é firme, nada é o que parece, e isso continua verdade mesmo nos dias de hoje, em que a manipulação, o interesse imediato e a mentira piedosa continuam a fazer parte do nosso dia a dia. O dia até tinha começado bem. Um pessoa disse-me quando me viu "olha o meu pintor preferido !", valorizei, e perguntei porquê, e a resposta saiu pronta "É o unico que conheço. Os outros preferidos estão todos mortos !". Gostei vindo de uma pessoa que me conhece mal. Mas no mesmo dia pessoas que me conhecem bem, mentem me sem necessidade, manipulam sem precisão, e dizendo valorizar a minha amizade, amachucam-na como papel velho e ignoram. A sensação de imbecilidade toma conta de mim, e apenas apetece retribuir, ou então desvalorizar e aos poucos ir saindo de cena quando vemos estar a mais nela e nela não ter qualquer lugar. Nem deveria estar aqui a falar assim para os meus botões, estarei a sobrevalorizar o que deveria começar a desprezar desde já. Nada tenho a ver com a decisão dos outros, mas tenho a ver com a decisão de me proteger, de não me envolver em causas que me fazem muito mal.
quinta-feira, 9 de agosto de 2018
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
Memória
Vinte e seis anos passados, algumas outras pessoas passaram, algumas alegrias passaram, muitas tristezas passaram, algumas novidades chegaram, a Francisca a melhor de todas, pessoas vieram pessoas foram, todas deixaram marca, para o bem, para o mal, nenhuma comparável, pois a inocência inicial não se repete, a marca dos filhos não se repete, a marca dos tempos não se remove, arranca, retira, destrói. Permanece sempre. Não tendo para o saudosismo nem para a valorização dos factos passados. Mas quando se passa por eles, mudamos para sempre. Entretanto quase morri, entretanto quase ressuscitei, pois não se pode chamar vida em absoluto aquilo que hoje me é proporcionado por Deus. Mas é o que Deus quis, e poderia ter querido outras coisas a que me poupou. Assim, vinte e seis anos passados, muita outra gente de que gostávamos também desapareceu, a vida segue o seu rumo, e aceitar como aceitei não significa esquecer.
Talvez a imagem mais conhecida do mundo
Hoje no ATL a criançada dedicou-se a uma tarefa que tem mais de 500 anos, diria 515 precisamente. Desenhou e pintou a seu jeito a Mona Lisa, tela de Leonardo da Vinci, pintada em 1503. Talvez seja a imagem mais conhecida do mundo, a mais vista, a mais apreciada, a mais comentada a que gerou mais controvérsia. Á altura do seu autor sem duvida o "homo sapiens" mais talentoso de sempre. A tarefa era dificil sem duvida, e para muitos tentaram livrar-se o mais rápido possível, para depois jogar à bola. Não tenho como reprovar tal comportamento. Mas mais uma vez contei com a cumplicidade da Daniela e da Joana para manter as tropas concentradas dentro do possível. O resultado foi interessante, apesar de alguma ajuda do "professor", um tal de "senhor Carlos", já ali também conhecido por essa designação. Não ressalvo trabalhos em particular mas dois ou três têm mais aprumo e foram feitos com veia. De resto foi uma coisa boa, mexer em água, em tintas, inventar cores e seguir rumo a uma Mona Lisa imaginada.
terça-feira, 7 de agosto de 2018
Inferno
Faz hoje um ano que tomei uma decisão que tornaria a minha vida num inferno. Mas até no inferno encontramos motivos de inspiração, reflexão, conhecemos amigos, conhecemos melhor "os amigos", e até aos sessenta e cinco anos aprendemos, embora muitas vezes da pior forma. Naturalmente não vou referir qual a decisão, mas devo dizer que o grande motivo da decisão tomada foi eu não saber dizer não. Ter sempre aquela horrível sensação de olhar o copo meio cheio, e o sentimento de "porque não tentar". Já vi tantos impossiveis realizarem-se que nada mais me admira. Depois houve algumas pessoas que me deram empurrão. Dessas algumas já saltaram da carroça, engordando o rol daqueles que acham sempre que tudo se deve fazer, desde que sejam os outros. Depois sempre pensei que vale a pena tentar, vale a pena ajudar, vale a pena procurar o "buraco da agulha". Certo que o reconhecimento não é o forte daquela população, e muitos outros antes de mim provaram esse veneno. Acabaram por encontrar o abismo abrir-se debaixo dos pés, quando apenas procuraram criar alternativas, projectos em prol do bem comum. O inferno aos poucos vai sendo um purgatório, nem por isso menos duro de suportar. Mas já que estamos em linguagem biblica, talvez contribua para ganhar o céu, coisa de que tenho sérias dúvidas. Terá valido a pena dar o meu tempo, o meu conforto, ter prejudicado a minha saúde periclitante, ter deixado por fazer outras coisas que me dariam mais prazer, ter dado a meu nome, envolver-me num caminho cuja saída está distante, incerta e custosa de atingir. Não sei. Outros dirão. Para mim decerto que muito perdi, e que terei de retorno ? Claro está uma questão que um voluntário nunca deve pôr. E calo-me já !
domingo, 5 de agosto de 2018
Partir
O habitual espetáculo de todos os anos, defronte do meu terraço. As andorinhas concentram-se para fazer um voo em conjunto para os locais de destino, os quais desconheço com precisão. Sempre o mesmo ritual, de manhã muito cedo mal o dia nasce. Por aqui tudo isto é natural, feliz e sem complicação. Parece que uma força colectiva as move, sem saber quem manda ou determina, quem gere ou decide, pelo bem comum. A força da natureza simples e ao mesmo tempo tão complexa e inexplicável. Se tivesse um maestro esta orquestra não soaria melhor nem o resultado seria tão perfeito. Um pouco da vida no campo.
sábado, 4 de agosto de 2018
Dentro da campânula
Sábado nasce escaldante, claustrofóbico, e não apetece sair da campânula onde o ar condicionado ainda permite sobreviver. E esse é o objectivo mais próximo e mais imediato. Uma urgência de sair da rotina mas mantendo a rotina. O dia desenvolveu-se de uma forma estranha. Alto calor, sufocante durante todo o dia. Cheguei ao almoço destruido, e a tarde foi passada em prostração na cama, apenas o ar condicionado tornava o ar respirável. Depois começa a ficar muito nublado. fechou o calor vinha como de um forno aberto. Começaram ventos intensos, quase ciclónicos, e súbito, no final da tarde a chuva, saída nem se sabe de onde. Derrubaram-se vasos, partiram-se as flores e tudo ficou pleno de terra e destroços de plantas. Agora entrou na noite a acalmou, mas o calor sufoca e a temperatura de hoje deve ter ultrapassado os 45 graus. Um horror. Depressivo, e um sinal dos tempos de alterações climáticas. Parece que S.Pedro está guerreando consigo mesmo pra decidir que tempo deve escolher.
sexta-feira, 3 de agosto de 2018
O calor e a persistência
O calor nos ultimos dias tem sido aquilo que temos vivido. Um bafo que nos assusta, sobretudo aos mais fragilizados, idosos, doentes crónicos, crianças, e todos aqueles que se encontram internados em locais onde o ar condicionado não chega, ou onde chega mas por razões várias e diversas nem funciona. Este é o caso do local onde tenho feito algum "voluntariado" nos ultimos tempos. Acontece que perante a ténue esperança de se conseguir pôr em parte a funcionar pude ver a força da persistência que demove montanhas, enquanto muitos se preocupam mais com os seus egos, a sua imagem, ou assuntos de "lana caprina". É bom de ver a força que transborda de algumas pessoas e o que com essa força conseguem fazer apesar das contrariedades permanentes, das dificuldades técnicas ou outras e da incompreensão de muitos. Nem toda a gente é igual e a persistência nem é o meu forte, mas aprecio essa qualidade de pessoas que são capazes de enfrentar as dificuldades sem esmorecer até conseguir, mesmo que no caminho tudo aconselhasse desistir. Parece que o Alentejo não é terra para quem detesta calor, nem pra quem insiste em combatê-lo
quinta-feira, 2 de agosto de 2018
As filhas do "senhor Carlos"
Hoje visto a pele de pai orgulhoso. Trago aqui "as filhas do senhor Carlos", que são naturalmente as duas do lado direito, sendo que a mais à direita é também mãe da menina Francisca, pelo que já tem um duplicado. Esta foto já estava na net pelo que nada arrisco em a republicar, até para o mundo que me rodeia saiba do que é que o "senhor Carlos" é capaz. Não são a melhores do mundo nem o "senhor Carlos" é o melhor pai do mundo (exceto no dia do pai, claro!). Publico para para verem como sabem rir, e como afinal me contemplam do alto dos seus 40 e 36 anos, com o otimismo de que gosto, pois todos que me conhecem sabem que prefiro sempre o sabor do copo meio cheio. Quem entende os subterfúgios da gramática percebeu que falo de mim na terceira pessoa porque para mim o "senhor Carlos" não sou eu, é mesmo outra pessoa. Aquela que outras pessoas vêm, que as outras pessoas chamam, que outras pessoas batizaram assim aqui no meu mundo rural. Na realidade essa pessoa é outra pessoa, menos senhor e mais Carlos. Há até quem me chame CR, mas essa é uma designação que reservo. Afinal se o "senhor Carlos" apenas deixasse no mundo estas duas raparigas, já teria cumprido cabalmente a sua missão. O resto que possa ter feito são trocos...
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
Machado de Assis
Entre os livros que recebi e que tinha arrumados na casa da minha filha vinha uma edição já antiga de um clássico da literatura brasileira publicado em 1881, e clássico da literatura em língua portuguesa, "Memórias póstumas da Brás Cubas", de Machado de Assis, nascido no Rio de Janeiro em 1839 e falecido em 1908. Não sei onde ou quando o comprei, mas resolvi ler e achei um livro excelente. O período em que viveu fica bem retratado neste romance, curto, humorado, realista ao nível do melhor de Eça de Queiroz. Tem 160 capítulos, a maioria de meia página, o que lhe dá uma dinâmica narrativa interessante. Tudo é contado a partir da morte do protagonista e narrador, pelo que se pode dizer que é um romance escrito por um defunto. O humor por vezes é corrosivo e a escrita muito moderna e num português bem particular. Uma surpresa para mim, tinha este livro há muitos anos mas nunca o tinha lido.
Um pesadelo
Passa-se aqui perto. Uma pessoa idosa que pretendemos ajudar, eventualmente encaminhar, e que vive num autentico sub mundo. Tem alguma reforma sem ser muita, mas poderia ter acesso a algum serviço, não quer ! Hoje vi fotos da situação e nem imagino como será a realidade ao vivo. Alguém dorme em cima de um colchão, sem lençóis, o colchão está mais negro que a terra, a sujidade e os restos estão por todo lado, até um recipiente para as "necessidades" cheio, por despejar talvez há semanas. Uma total desarrumação não se entende quase o que são moveis ou detritos. O tal colchão apoia-se numa cama de ferro pequena, e a bordas do dito suportadas por tijolos. A pessoa em causa tem algumas infeções mal tratadas. Um verdadeiro pesadelo como eu nunca tinha visto nem imaginado que existia dentro de casa própria, onde vive, e onde o abandono e a falta de cuidados é total. Tem mais conforto em muitos que vivem na rua. E isto passa-se dentro deste concelho, numa das suas vilas, por detrás de muros e janelas à revelia dos apoios sociais, que estão a falhar. Talvez porque a informação não chegue. Talvez porque a proposta não chegue. Talvez porque o papel não chegue. Talvez porque o dinheiro não chegue. Talvez porque a vontade não chegue. Talvez porque tudo tenha chegado mas tenha partido como chegou porque a vontade da própria pessoa se impôs ou talvez a falta dela.
Subscrever:
Mensagens (Atom)






