segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Simplesmente... um pic nic

Hoje na Associação realizaram um pic nic. De manhã pela fresca, o município cedeu o autocarro, a Barragem da Rocha cedeu o local, o sol cedeu o calor, a brisa cedeu o fresco, os meninos e meninas do ATL cederam a sua presença, os idosos de Centro de Dia também, e depois há aqueles que cederam a sua vontade e força para colocar toda esta gente dentro do autocarro. E destes precisa de se falar, pois temos de imaginar como colocar uma pessoa de cadeira de rodas num veículo sem acesso para pessoas com dificuldade de mobilidade, pegar em peso, fazer subir uma escada e sentar, bem como o movimento inverso. Pior ainda será convencer a pessoa que está em segurança, e que no meio não haverá nenhum percalce. Coisas para pessoas especiais, que decerto deram o melhor de si. São coisas do dia a dia. Um pic nic, bahhh, que vulgaridade, como pode ser notícia ? Mas para cada pessoa colocada na sombra das árvores um mundo de vontades tem de se reunir. Tudo simples, tudo certo, mas tudo dificil. Já agora a ideia de misturar os jovens do ATL com os idosos é algo mais do que uma boa ideia. É uma boa maneira de estar na vida.

domingo, 12 de agosto de 2018

O passado e o presente

Assim têm sido os ultimos dias com a permanência da mãe na minha casa. Para passar alguns dias das férias da pessoa que a costuma "acompanhar". Um mergulho no passado, como se esse passado fizesse parte do presente. As situações vividas há mais de cinquenta anos entram na "conversa" como se fossem factos de ontem. Assim se estivermos a falar do medicamento que está a tomar agora para as dores, dirá que sim, que o fulano de tal, tomava isto ou aquilo, e isso é que era bom,  sendo que esse fulano terá falecido há 50 anos. É curioso como a memória de factos passados se apruma, enquanto a do presente próximo se torna difusa, imprecisa, e sem rigor. Talvez a quantidade de factos que ocorrem no presente leve a nada reter, tudo baralhar e tudo confundir. Sobre factos passados já foi feita uma seleção natural e apenas muito poucos factos permanecem retidos, mas estes com precisão. Assim no presente temos quantidade, no passado temos qualidade. Agora para o paciente interlocutor (o filho...) é de rasgar as vestes ! Não será má vontade mas é dificil manter conversa, e conversa é o que mais quer, uma vez que leva a vida sozinha. O problema é que o "senhor Carlos" também. E de repente ser transportado do presente ao passado, e linguarejar em tempos tão diferentes, acerca de pessoas que nunca conheci, acerca de factos banais, como se fossem realidade do dia, é um exercício inacessível a um solitário inveterado, habituado a outro tipo de "diálogos". So help me God !!!

Domingo de Alarcón

Quem me conhece bem, e muito poucos incluo neste grupo restrito, sabe que gosto muito de ciclismo, eu próprio dei umas pedaladas em BTT, quando nos anos noventa esta modalidade chegou a Portugal, e havia na Renault onde trabalhava, um grande grupo de amigos que todos os domingos se juntava para fazer uns passeios na Arrábida, nos trilhos até Sesimbra e regressava, cheios de fome, poeira mas de alma limpa. Ali não se distinguia chefes, subordinados, engenheiros ou operários, era tudo gente das duas rodas. Lembro com saudade o colega Cara Nova, nosso mentor, de quem eu era chefe lá na fábrica, mas ali tinha-lhe respeitinho, pois era ele quem decidia o melhor para o grupo. Penso que terá falecido já. Eu próprio acabei por ter um enfarte montado em bicicleta, mas isso são contas de outro rosário. Sempre apreciei este desporto feito de superação, sofrimento e alegria. Vem tudo isto acerca da Volta a Portugal, que assisto sempre na televisão, e a admiração que tenho por aquela gente que se dedica por tostões, pois ali todos são profissionais, e atiram-se à estrada e às montanhas num esforço diário, num desgaste permanente, dando um exemplo de luta, superação e humildade. Este ano, como no ano passado, Raul Alarcón domina. E não se esconde atrás dos companheiros para estes o levarem ao colo. Tem tido uma posição relevante ganha à custa de trabalho e dedicação. Sendo espanhol, corre por uma equipa portuguesa, o FCP. E dá um exemplo às primadonas do futebol, cheias de mimo, embirrentas logo na primeira contrariedade, exigindo sempre muito dinheiro e um par de botas. Hoje termina, o desfecho é incerto, mas Alarcón já ganhou pela sua força, persistência e capacidade de trabalho. Ainda bem que há desportos que se vencem no terreno e não na secretaria, ou melhor na "tesouraria".

sábado, 11 de agosto de 2018

Batatas fritas

O Pingo Doce é o grande centro de encontros aqui do interior profundo. Não há local que atraia mais gente, onde meia vila convive, mostra as crianças, a foto do neto, conversa acerca das pensões, das reformas, de futebol, fala de tudo e de nada. Até a mim, um desconhecido por estas paragens, um peixe fora da minha água urbana, um lisboeta inveterado, mas convertido ao cheiro dos campos alentejanos, isso me acontece. Ainda há poucos dias encontrei uma pessoa na entrada, a que acenei, e de novo na caixa reencontrei e voltei a acenar enquanto fazia um pagamento no multibanco. Reconheci dificilmente, pois habituado a ver essa pessoa fardada, vi a mesma pessoa no seu vestido preto e sapato de tacão, elegante, parecia-me bem diferente. Mais tarde ainda no mesmo dia voltei a ver a mesma pessoa agora na versão pro, até me ofereceu batatas fritas. Fiquei a pensar na vantagem do Pingo Doce para conhecer o outro lado da mesma pessoa. De outra forma não tem pretexto, motivo ou possibilidade. Sem o Pingo esta terra morria de tédio, com o Pingo fervilha de curiosidade. Nem precisa investir em bibliotecas, centros de convivio ou foruns municipais. O Pingo tem os livros, os laços sociais, a cultura junto com as batatas fritas. E quem não precisa que lhe ofereçam umas batatas fritas.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Esperança

A palavra mais certa para um dia em que alguma coisa se renova. Renovou-se uma ideia, nova e velha ao mesmo tempo, de que a vida tem de ter outro sentido. A solidão mata, dizia um livro recente acerca dos laços sociais e da sua importância, e não sei porquê mas a presença nos últimos dias da mãe comigo, acentua a minha sensação de solidão. Provoca-me uma sensação de desconforto e uma permanente pressão que me arrasa e me destrói. A observação é total, a desconfiança é permanente, por mais que insista faz-me sempre sentir que não está na sua casa, até para beber um copo de água me pede autorização, e acreditem, não é por uma questão de educação... Nem imagino o que seria se essa presença passasse a permanente. Mas afinal onde está a esperança ? Está na tomada de consciência, na apertada malha da rede que me prende, e que me renova a esperança de libertação. Pode ser apenas uma ilusão, mas será que as ilusões não fazem parte da nossa vida? Apenas não as devemos tomar por realidades.

Colagem

Dia de colagens no ATL com a ilustração da técnica do guardanapo. Desta vez nada tive a ver, para além da ideia de convidar a Ana Lúcia para fazer uma coisa que já costuma realizar nas sessões da Universidade Sénior. O resultado é bonito, a execução simples e a concentração dos pequenos impecável. Saliento ainda um pequeno pormenor, o da colaboração da Nossa Terra, coisa que apreciei particularmente. Num concelho pequeno em dimensão de meios escassos acho que se alguém faz alguma coisa bem deve partilhar para bem da comunidade. Nada de exclusões, ódios de estimação, invejas, ou outros emissores de energia negativa. Isto na minha simples opinião, que pouco vale. Mas parece-me evidente.

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

Monchique

A esta terra tem estado ligada a estadia já por duas vezes, em Novembro e Abril, na companhia de uma pessoa que me é querida. Por isso fiquei particularmente perturbado pelo que tem acontecido. Cem quilómetros progrediu o incêndio que veio de Norte para Sul e tudo arrasou, desde a aldeia de Alferce, Picota, rodeou a vila de Monchique e avançou até à zona Termal, onde ameaçou hoteis, zona de banhos e fábrica de engarrafamento. Numa das vezes que estivemos em Novembro estacionei o carro no parque publico em cima do qual tem um miradouro com vista sobre a serra. Na foto podemos ver a vista que se podia ver no passado sábado. São boas recordações de bons momentos ali passados, com pessoa de quem se gosta, pois aquele parque apela a romantismo e sossego, que acabam por ser também destruidas também um pouco neste fogo gigantesco. Apesar de não saber se ali voltaria, tudo me indica que não, agora perante esta situação será ainda mais penoso rever aquele espaço onde fui (ou fomos) felizes. Uma tristeza enorme invade o meu coração, já triste pela incerteza do retorno. Agora pela certeza da catástrofe.

Pressa

Costuma dizer a "vox populi" que a pressa é má conselheira. E é verdade. Da pressa apenas pode resultar precipitação, má qualidade, equívoco, depreciação. Antes a ausência que a pressa, quando estamos a falar da relação entre pessoas. Quando tratamos alguém de forma apressada estamos a desvalorizar essa pessoa, a dar a entender, mesmo que involuntáriamente, que temos outro compromisso mais importante e portanto temos da despachar !!! Aí mais vale a ausência, se não posso dar um tempo de qualidade então pura e simplesmente não dou tempo nenhum e nem presisa explicar. A menos que essa pessoa nos mereça essa explicação, o que pode nem ser o caso. Aliás nem sequer há caso, estou aqui apenas a filosofar em abstrato sobre um assunto em tese, e nada de concreto justifica este post, pois jamais alguém me terá tratado dessa forma tão deselegante. A deselegância nesse caso chamaria deselegância, o que de todo não faz o meu estilo, que é ameno e confiante. A mim também se aplicaria preferir a ausência à pressa, e passaria a ausente. Pois claro !

Sombra

Uma sombra que se projecta mostra a nossa imagem deformada na chão liso. Numa das muitas estradas aqui do BA, de onde se vê o infinitamente grande e nos sentimos pequenos. Hoje na saída do Pingo Doce alguém pediu-me boleia. Eu nem conhecia a pessoa, mas a pessoa conhecia-me muito bem e até sabia qual era o meu destino provável, destino que era aquele que lhe interessava, a terra onde vivia com a filha, que por sua vez era uma rapariga que ele identificou e que por sua vez me conhecia muito bem, e até era verdade. Dei boleia ao meu ilustre desconhecido. Senti me pequenino.
Pelo caminho fui sabendo um pouco da história de vida, bem parecida com a minha, que gostava dos meus quadros, que tinha admiração por mim, que lá na terra as pessoas falavam de mim, que eu tinha feito um quadro com sobreiros, verdade, que tinha feito outro com a igreja da terra onde vivia, verdade, que tinha formação noutra área, e até sabia um pouco da minha saúde, e que eu partilhava com ele ser diabético, isso disse-lhe eu. Senti-me enorme, e gostei do senhor em causa, Acabei por ver a minha sombra projectada nas palavras dele, e desta vez até que gostei dela. Coisas só possiveis quando se leva a vida no campo. Noutro contexto nem teria dado boleia a ninguém, e se calhar ninguém teria pedido.

Meditar

Porquê meditar depois da meia noite ? Rever o dia. Rever o que as pessoas foram para nós durante um dia, o que fomos para elas. O dia foi mal escolhido. Passa uma efeméride triste, e em breve outra passará, quando há dezoito anos decidiste partir e eu nada fiz. Agora apenas uma lágrima rola quando penso nesses dias de Agosto, em que tudo se passou, em que muito coisa desapareceu, coisas que tinha por firmes e boas, e afinal nada é firme, nada é o que parece, e isso continua verdade mesmo nos dias de hoje, em que a manipulação, o interesse imediato e a mentira piedosa continuam a fazer parte do nosso dia a dia. O dia até tinha começado bem. Um pessoa disse-me quando me viu "olha o meu pintor preferido !", valorizei, e perguntei porquê, e a resposta saiu pronta "É o unico que conheço. Os outros preferidos estão todos  mortos !". Gostei vindo de uma pessoa que me conhece mal. Mas no mesmo dia pessoas que me conhecem bem, mentem me sem necessidade, manipulam sem precisão, e dizendo valorizar a minha amizade, amachucam-na como papel velho e ignoram. A sensação de imbecilidade toma conta de mim, e apenas apetece retribuir, ou então desvalorizar e aos poucos ir saindo de cena quando vemos estar a mais nela e nela não ter qualquer lugar. Nem deveria estar aqui a falar assim para os meus botões, estarei a sobrevalorizar o que deveria começar a desprezar desde já. Nada tenho a ver com a decisão dos outros, mas tenho a ver com a decisão de me proteger, de não me envolver em causas que me fazem muito mal.