segunda-feira, 20 de agosto de 2018
Interior
Estou colaborando numa pequena instituição que possui uma unidade de cuidados de saúde. Tem um pequeno defeito que lhe deita tudo a perder. Está no interior, diria mesmo, no interior do interior. É que muito se fala agora de Pedrogão, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos, Pampilhosa. Todos os ministros, lideres políticos, primeiro ministro, presidente, se desdobram em visitas, planos, projectos, infelizmente por razões tristes, estes locais acabam por estar na moda. Mas como diz o povo "há mais Marias na terra". Sendo um alfacinha de gema, vejo com pena a dificuldade que é fazer alguma coisa no interior de BA, onde tudo é dificil, envelhecimento, desertificação, pouca instrução, nem diria pouca formação, pois cursos de formação não faltam a quem se quer tornar em profissional deles. Agora nesta pequena instituição submetida ás mesmas regras de funcionamento de uma situada em Almada ou em Sintra, entra gente sai gente, poucos ficam, poucos se fixam, excepto aqueles que são naturais da terra, e mesmo esses ! Permanentemente com o credo na boca com medo de perder as pessoas, a quem, diga-se de passagem, não se pode pagar muito, para compensar o esforço de estar num local como este. Qualquer assistência necessária é prestada mal, à pressa e custa uma fortuna só em deslocações. Vou dizer uma coisa estúpida, mas nem tem árvores para arder. Assim o ministro não vem, e o abandono é sempre o que paira no horizonte. Talvez se o ministro viesse acabasse tudo na mesma.
domingo, 19 de agosto de 2018
Pessoas
Pela nossa vida passam pessoas, pessoas e pessoas. Umas deixam-nos uma imensa carga, um peso de más experiências, e cada minuto que passámos com elas pareceu horas. Infelizmente quando nos apercebemos disso já muito foi soterrado debaixo dessa carga, e o que da vida poderia ter sido prazer e felicidade sucumbiu sob um mundo de exigências, pressupostos, imposições, para não dizer pior. Laços desfizeram-se por sua intransigência, redes que foram desmanteladas e agora nos fazem falta, vinculos desfeitos, amizades perdidas. Há uma máxima que deveriamos aplicar mas que sempre esquecemos e que é "nunca gostes de alguém que não gosta das pessoas de que tu gostas". Sempre achamos que a ligação com essa pessoa será mais forte e tudo compensará. Errado ! Depois temos pessoas que passam como raios de luz. Tudo foi muito rápido, leve mas muito luminoso, quando pensamos o que fazer com tanta luz, esta apaga-se e fica-se na escuridão. Temos ainda pessoas que nos dão a confiança e a solidez, e estão disponíveis sem se imporem nem pedirem nada em troca, apenas porque estão bem no ambiente que lhes criamos, e geram para nós um ambiente que nos faz sentir tranquilos. Com essas pessoas entramos em portas diferentes de um enorme centro comercial e sempre nos encontramos pois os nossos passos nos conduzem ao encontro. Não estou aqui a falar de frases feitas, como aquelas banalidades com que sempre tropeçamos na internet. Falo de experiência própria pois já encontrei todos estes tipos de pessoas e talvez outras aqui não descritas. Vivi com elas e ainda hoje carrego algumas das dores dessas ligações. Por muito que queiramos o passado não se apaga com o botão "delete", e não é para apagar, pois é uma riqueza e não um fardo. Há no entanto que o domesticar, e colocá-lo onde deve ser posto, a pasta dos processos arquivados. Nalguns casos passar primeiro no triturador de papel...
sábado, 18 de agosto de 2018
Amor incondicional
Para quem tem filhas como eu tenho, e se tenha habituado com o tempo à sua companhia, mesmo que à distância, sabe do que falo. Aquele sentimento de permanente e imensa cumplicidade capaz de tudo aceitar e tudo perdoar. É o chamado amor incondicional, aquele que aceita sempre um copo meio vazio como um copo quase cheio. Ilusão de pai para quem as filhas são como que "eternas namoradas". E nós acabamos sendo "eternos heróis". Acabamos mesmo convencendo-nos de que incondicional quer dizer exclusivo. Errado ! Escaldados pelos trambulhões emocionais, pelas experiências de falhanços e quedas, de voltar a levantar, parece que ali, junto daquelas raparigas, encontramos porto seguro. Ora elas também têm os seus trambulhões e nem sempre representam a estabilidade. Além de que todo o ser humano quer ter a sua vida com tudo a que tem direito, Quem quer ter uma criança tem criança, e aqui falo daquela coisinha fofa em que penso todos os dias, a neta, quem prefere ter cão tem cão. O amor esse permanece incondicional. Mas por mais que se dê voltas, ninguém merece a nossa exclusividade. A vida é uma estrada que tem várias ramificações, a ciência está em conseguir seguir os melhores caminhos. Muitas vezes nem acertamos. Na foto podemos ver os meus "amores incondicionais", as filhas do "senhor Carlos", agora em formato "cerimónia 4.0", e a prova de que o justificam plenamente.
Antigo ??
Andava procurando uma capa para o meu "smartphone", que a minha já se desfaz, ali para os lados de Castro, e decidi ir a uma loja Phone House num centro comercial, daqueles que nem cheiram muito bem, e cheio de gente na esplanada, gordos, falando alto, enfim um bom ambiente urbano para gente rural. A menina era de enorme simpatia, apetecia mesmo comprar-lhe qualquer coisa... Ao ver o meu aparelho diz ela "Para estes telemóveis antigos já não tenho capas, e será dificil encontrar!" Parece que estavamos a falar de um telemóvel tijolo, dos primórdios da comunicação sem fios, arcaico e sem funções daquelas que não servem pra nada ! Mas na realidade o meu ainda nem fez três anos (faz em Outubro como o seu dono...), e já merece o epíteto de "antigo". Mas que noção do tempo existe agora neste comércio modernaço. Para a simpática criatura eu deveria comprar um novo e aproveitava e levava a capa também. Mas é isto a sociedade do desperdício, incutido pelos interesses comercias nas cabecinhas ocas destas jovens. Um telemóvel de três anos deve durar mais três, no meu modo de ver, se calhar o meu modo de ver é que é antigo, a menos que seja verdade que a sua morte esteja logo programada à partida, como parece ser a prática da Apple. Apetecia-me comprar qualquer coisa à jovem vendedora, pela sua simpatia, mas acabei apenas por trazer umas revistinhas para ver as "fantásticas" promoções e logo decidir. Decidir que não vou decidir claro ! E o telefone "esperto" que se aguente na sua capa miserável, pelo menos mais três anos. A menos que a morte já lhe esteja ditada.
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
Aceitar
Os últimos dias têm sido de arrasar. Mistura de sentimentos contraditórios, contradições, dúvidas, falsas certezas, rejeição e afastamento. Depois caiu tudo quando a presença de outra pessoa, a mãe, só complica. A paciência vai-se, o tempo é devorado em tarefas do quotidiano, e a saúde afinal nem ajuda. Finalmente no meio de tudo isto a minha organização esvai-se, o tempo contrai-se, a vida esboroa, e tudo aponta para a espiral depressiva. O calor também chateia, e o que poderia ser um belo dia de praia, é apenas um pretexto para a sombra, para a retração e para o inchaço. A questão é sempre a mesma, a solidão de quem põe o braço fora da água, e não sente a presença de qualquer embarcação. Complicado, sim, mas nada que o tempo não acabe por ajudar a resolver. A questão é que tudo foi demasiado rápido, demasiado imprevisivel, demasiado para alguém com principios de vida sólidos, e uma ética estupidamente obsoleta. Claro aceito tudo como mais uma dádiva, mais uma experiência, mais uma prova de resistência que Deus está-me proporcionando. E já foram tantas que nem teria de me admirar. Estou a aproximar os sessenta e seis, e se as estatisticas fossem a lei de Deus só teria mais cinco anos de vida. Felizmente ou não, as estatisticas são apenas estatisticas e Deus está-se nas tintas para elas. Veja-se o meu amigo Vitor, qual seria a probabilidade de morrer aos 64 ? E desde ontem ele lá está, chamado à Sua presença. Vamos aceitar e esperar. Deus tudo vê e tudo aprecia.
Vida de reformado
Não sei se repararam que ultimamente se tem falado muito em acabar com a reforma compulsiva aos setenta anos. Isto é uma pessoa poder trabalhar para o Estado ou instituições públicas até ao fim da vida no caso de o desejar. No privado isso já sucede. Graças a Deus. Eu detesto decisões compulsivas, o ser obrigado a, provoca em mim um desejo imediato de contrariar, de contornar ou desobedecer. E vejo como homens de grande nível são obrigados a parar, e o Estado e o povão a perderem o contributo de pessoas que queriam contribuir com muito préstimo. Temos vários casos mas talvez o que disparou a discussão foi o do grande cirurgião Manuel Antunes, obrigado a reformar-se, ou do Prof. José Fragata, o homem que me salvou da ruína e da morte, a caminhar também para lá. Agora até eu sou reformado também, embora ainda nem tivesse chegado à idade, e levo essa célebre vida de reformado, em que se joga ás cartas, em que se está a polir bancos do jardim, no caso dos homens, ou a lamber os netos no caso das mulheres. A isto se adiciona no Alentejo ter por perto umas "mines". Mas a minha vida de reformado é um pouco diferente. Pus me a pensar que hoje levantei pelas sete horas, depois de aprontar café da manhã para dois, eu a mãe, saí para ir ao banco tratar de assuntos alheios, depois para outro multibanco onde paguei contas que não eram minhas, aí fui ao Pingo, a mania de comer sardinhas ao sábado, depois fui tratar de comprar um cartão para o telefone, pensei que as sardinhas e outro peixe não gostariam da manhã na mala do carro, passei por casa a amanhar e congelar o que disso precisava, depois fiz quinze quilómetros de carro, era preciso passar na unidade para tratar de papéis, a propósito de papéis, faltavam folhas para fotocopiadora, pelo que fiz mais quinze para vir ao Pingo de novo e outros quinze para regressar, mais umas decisões e umas conversas, aí veio o almoço, desta não tinha do fazer, e tive companhia, ufff, após o que regressei a casa, outros quinze, e no total sessenta quilómetros. Cheguei a casa pelas quinze e só mesmo a cama me chamava. Quais "mines", quais cartas, quais banco do jardim. Á minha medida, nada de comparar com os grandes homens que atrás citei, quem corre por gosto... A isto se chama uma bela vida de reformado... Já lá diziam os outros "arbeit macht frei". Teriam razão ? (para quem não saiba falo da célebre máxima nazi "o trabalho liberta", afixada nos portões dos campos de concentração, libertação num local daqueles... nem a brincar)
A morte saiu à rua
Esta música no título era uma música que gostávamos, mas no dia de hoje tem outro sentido. Refiro aqui a morte de um amigo meu de infância que ocorreu hoje e de que tomei conhecimento agora mesmo na internet. Era Vitor Reia Batista de seu nome, era professor na Universidade do Algarve, doutorado em Comunicação por imagem, especialista em Cinema, e dirigia o curso de Ciências da Comunicação. A doença já o tinha afastado do ensino há alguns meses, tinha 64 anos, menos um ano que eu. Conhecemo-nos em 1968, ele com 14 e eu com 16 anos, e até 1973 partilhamos gostos, experiências, escrevemos coisas em conjunto, até uma peça de teatro que nunca subiu em cena nenhuma, poesia de que era eu mais dotado, pois até publiquei, mas também muitos dias de praia na Costa da Caparica, onde morávamos, só não partilhámos namoradas, nessa altura não se usava, e os hábitos eram mais contidos. Ainda andamos em conjunto em Engenharia no Técnico, mas em 1972 o meu amigo decidiu sair para a Suécia, num dia de Agosto em que começou a pedir boleia na Rotunda do Relógio, e de boleia em boleia chegou á Suécia onde pediu exílio ás autoridades. Não esquecer que estavamos em plena guerra colonial para a qual seriamos arrastados a qualquer momento. Ainda estive com ele em Lund na Suécia em Setembro de 1973 a ver no que dava, mas como não tinha risco de incorporação militar, regressei e o Vitor ficou, voltando em 1975, para integrar o Verão quente. Tinha estudado Comunicação e Cinema na Suécia, e dado o arranque da Universidade do Algarve e ausência de licenciados nessa área, antes do 25 de Abril certos cursos estavam proibidos, como jornalismo, sociologia, cinema, etç etç. E ficou por lá. Ainda nos visitamos algumas vezes poucas, e mais recentemente tinha-me prometido uma visita quando se livrasse "desta porcaria". Referia se ao cancro. Não se livrou e a visita ficou adiada "ad eternum". Era um rapaz de esquerda como eu, mas desalinhado e sem esquerda definida, como eu, mais de causas do que de politicas, como eu ! É já o segundo amigo de infância que me morre. Se calhar eu estive mais perto da morte, mas Deus terá gostado mais do Vitor por isso o chamou. Vitor agora vais ter de comunicar mais com Deus. Que a tua alma agitada encontre repouso. Fiquei muito triste.
quinta-feira, 16 de agosto de 2018
I say a little prayer for you
Foi a notícia do dia, aos 76 anos morreu Aretha Franklin. Uma voz e uma vida que cantou no funeral de Martin Luther King, e na tomada de posse da Barack Obama, tal a dimensão do seu talento. Nos meus dezasete anos em que juntava tostões para comprar uns discos, "Aretha Now" foi o segundo LP que comprei na vida, por influência de uma correspondente belga (quem se lembra das correspondentes...na era do whatsapp ). Boa escolha que fiz e aí conheci melhor o soul, e a voz e interpretação de Aretha. Demorou uns meses a juntar os 180 escudos que custou. Lá dentro entre as doze canções de um LP vinha "I say a little prayer for you", uma das canções mais bonitas de sempre. E a sua voz empolgava. Sabia também o seu envolvimento na luta pelos direitos cívicos, e a sua voz destacada nessa batalha pela igualdade de direitos para os negros. Não sabia que iria evocar esta música no dia da sua morte. Vinha também "Respect", já popularizada por Otis Redding, ligada com essa luta pelo respeito pelo Homem. Recentemente adquiri um conjunto dos cinco CD mais importantes dela, e lá estava a versãp digital de "Aretha Now". Calou-se a voz, ficam os registos para continuar a ouvir . Talvez outros presidentes americanos precisem ! (Na foto a capa desse disco de 1968 )
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Ganhar e perder
Todos os dias se ganham pequenas batalhas todos os dias se perdem pequenas batalhas. Mas nem todos os dias se ganham amizades ou se perdem amizades. Não é todos os dias que se conhecem pessoas amigas, mas quando as perdemos fica sempre um vazio. E se as perdemos sem saber que já as tinhamos perdido e qual a razão, esse vazio transforma-se em decepção e em mágoa. Acontece na vida, e temos de aceitar. Os outros têm razões que desconhecemos e se, ao ser-lhes perguntado, não respondem, fica margem para toda a efabulação. Tenta-se perceber, perceber, perceber, e nada. Tenta-se usar a lógica, a matemática, a psicologia, as ferramentas que permitem compreender a alma humana e nada ! Continuamos sem perceber. Aí só nos resta aceitar o desprezo, ler os sinais, compreender os indícios, sem mostrar arrependimento, ou frustração, digerindo a dor, agradecendo o que foi recebido, e procurando colmatar o vazio. Claro, uma pessoa não substitui outra, e a ingratidão destrói. Prova-se assim do mesmo veneno. Se calhar estava mesmo a pedi-las.
terça-feira, 14 de agosto de 2018
Como lidar com a vida quando a vida não nos quer ?
Assisti a algo que não pensava assistir. E felizmente desviei o olhar. Uma criança que vai ser entregue a uma instituição a despedir-se do seu familiar mais próximo. Era mesmo a despedida e por algum tempo uma efectiva separação. Claro casos destes não podem ter boas soluções, apenas as menos más. E no caso esta a menos má. Acontece que não estamos preparados, e aqui tiro o chapéu aos técnicos que lidam com estes casos mantendo o sangue frio e procurando no meio do drama o caminho da vida. Não seria para mim... Acontece que quando a vida nos rejeita como lidar com ela ? Quando a família falha, pais falham ou não podem acorrer pela sua situação concreta, a própria criança falha pois não conseguiu integrar a sua diferença, nem fazer se aceitar, há apenas uma solução que é a sociedade não falhar. Mas conhecendo a situação em concreto não consigo imaginar o que será o futuro para crianças como estas, o que as espera na curva da estrada. Claro ali houve choro e a consciência de que seria um longo adeus. Um adeus sem regresso, mas que se pode transformar numa luz no fundo do túnel, assim a sociedade e as suas instituições não falhem. O problema é que falham muitas vezes. Terminando com um olhar pessoal, eu mesmo algumas vezes sinto necessidade de responder à pergunta que formulo no título deste post, pois essa sensação de não ser querido pela vida faz muitas vezes parte da minha própria vivência. E como lidar então com a rejeição ? Sobretudo como lidar sózinho com a rejeição ? Isso é para Homens superiores. Que traçam caminhos, percorrem, e vão até ao fim independentemente dos outros e das suas contrariedades. É para fortes, não é o caso de uma criança sem defesas ou de um "velhote adoentado"... Melhor esquecer, melhor ultrapassar, melhor julgar-se mesmo um homem superior !!!
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