domingo, 26 de dezembro de 2010

Mensagem

Estamos às 14h, e foi-me dito que existe uma hipótese de transplante para hoje. Essa hipótese só será real se os testes de compatibilidade em curso permitirem o transplante. Por isso até às 18h nada se deve saber de concreto para além de ter de ficar sem comer nem beber. Assim, se não voltar tão depressa aqui é porque se concretizou positivamente e os meus amigos terão de obter novidades por outras vias. Se a hipótese não se concretizar, mal saiba voltarei ao blog.
Wish me luck!!!

Um grande romance


"Leite Derramado" lê-se de um jacto, prende, interessa e está escrito com muita inteligência, elegância e humor. Quem esteja habituado às letras das canções de Chico Buarque, vai encontrar ali os seus traços. O que poderia ser um romence mórbido, saudosista e triste (pois trata-se de um monólogo de um homem num miserável leito de morte) é algo de fresco, arejado e de humor tão refinado que nos agarra do princípio ao fim, quase como um romance policial...


A história de Eulálio Montenegro d'Assumpção, nascido em 1907, e já centenário, mostra-nos de forma simples um pouco da história do Brasil, enquanto país de grandezas e misérias. Um homem que se vai tornando num pobre, pois outros se aproveitarão dele (será?), mas está sempre convencido que o seu nome e a sua linhagem lhe abrirão portas que há muito estão fechadas. Depois a memória desfiada deste moribundo faz o resto. Essa memória que sai por camadas, sendo que com frequência as camadas se misturam, por várias épocas históricas do Brasil, numa descrição simultâneamente delirante mas lógica. Atravessando todas as memórias a grata imagem da sua esposa Matilde, que o abandonou logo após o casamento com a filha Eulalinha ainda lactente. O destino de Matilde vai-nos sendo descoberto estre as certezas e as dúvidas do marido e esta acaba por ser também a segunda principal figura da obra.


Do melhor que tenho lido nos últimos anos e recomendo nesta altura em que há algm tempo para ler. Aos poucos vamos perdendo um grande cantor e escritor de canções mas vai-se ganhando um grande romancista da lusofonia.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Cabrito ao almoço

O almoço de dia de Natal é, a par do de Ano Novo, o mais importante do ano. Mesa farta, família à volta da mesa, crianças correndo esbaforidas pelo entusiasmo da nova playstation, e outros lugares comuns, alguns deles nem a crise coartou este ano.
No meu caso alguns desses elementos não estiveram presentes (felizmente...), mas por boas graças da Maria Augusta, houve cabrito (o prato mais típico da época), tarte de amêndoa da D.Graça, e até um melão de 6 estrelas, para além da emoção e do afecto, hoje toldado com alguma revolta. Mas deus me perdoe, tem dias assim, em que apesar de me ser concedido o maior bem, ver a luz de um novo dia, e ainda por cima o de Natal, o nosso coração sente uma pontinha de egoísmo, e sentimos que somos puxados por uma queixa acerca da nossa situação, que tolda o dia como uma nuvem cinzenta que passasse sem ser esperada.
No final ainda recebi uma prenda de alto valor estético e que só vou poder apreciar em casa, mais tarde, o album "Fotografias" de António Barreto, obra de uma beleza indiscritível.
Há dias assim.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Consoada para três


Muitos dos meus amigos irão pensar como irei passar esse momento em que crentes e não crentes se transfiguram com a imagem de "alguém muito maior/talvez homem também".

Neste caso vamos fazer uma consoada a três. Com beneplácido dos enfermeiros, eu e a Joana e a Inês, vamos fazer assim uma espécie de pic nic, nesta mesa de cabeceira, com o material que elas trouxerem de casa, e durante a hora da visita, das 18h às 20h não irá faltar o precioso bacalhau com as couves e as batatas que virão de casa acondicionadas em caixinhas de plástico. Doces, alguns mas não muitos, eu próprio não estou para aí virado.

Pode-se perguntar se não sinto a falta de outras pessoas a meu lado. Claro que sinto !!! mas todos os outros anos sinto, e sentimos quase todos. Não vale a pena crer na utopia de que o Natal junta o que o resto do ano separa, pois isso é apenas uma ilusão.

Depois da consoada cada um vai seguir o seu caminho. O meu é para a cama, após um pouco de televisão, para limpar o cérebro, a Inês vai acompanhar a avó, que nada quer e tudo espera, tendo ela a mais dificil tarefa, pois não sabe com que humor será recebida, a Joana, talvez a mais feliz de todos os três, vai trabalhar no hospital.

E assim se conclui esta consoada a três que mostra não ser necessário copos de pé, pratos Vista Alegre, toneladas de comida e conversas da treta entre pessoas que passam o ano de costas voltadas, para se consoar de uma forma "santa" (como se diz nos telejornais). De resto Bom Natal para os leitores deste blog!!!

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

O estar, o ser e o esperar


Neste momento em que me sinto bem, mais de que "esperar", previligio o "estar" de acordo com o meu "ser", o meu modo de existir e de ver as coisas que me rodeiam.


Deixei de olhar a porta à espera da grande notícia e passei a organizar o meu dia, sem contar com nada.


Inicio pelas 7h30, quando me acordam para os primeiros controlos e terapias, e ouço rádio até cerca das 9hoo, quando é servido o pequeno almoço, e continuo a ouvir rádio até cerca das 10h00, hora que, em média, vou ao banho, por meu pé mas com ajuda de um auxiliar, que me apoia da melhor forma.


Regresso e vou directo para o cadeirão, onde toda a fieirada é ligada, para que não fuja deste local aprazível. Então escrevo o meu diário manuscrito, um balanço da véspera e uma projecção do dia, para que nada esqueça dos factos passados. Em geral desse diário sai uma ideia para o blog que escrevo de seguida. Pelo meio servem um iogurte que como com frutos secos. Consolador!!!


Se tiver tempo posso ainda ler umas páginas até ao almoço, servido pelas 13h15.


Aí procuro ver os diversos noticiários generalistas e do cabo até cerca das 15h, hora a que me deitam para uma sesta que pode durar até ao lanche, 16h30, ou não durar nada, se não adormecer, o que por vezes sucede.


Do lanche em diante leio na cama, até cerca das 18h; posso também ver algo na net. Pelas 18h levantam-me e vou ficando no cadeirão a ler até ao jantar, ou até à chegada de alguma visita, o que ao jantar sucede sempre. O jantar é servido pelas 19h15, e a partir das 20h até às 22h, volto aos noticiários, e tenho visto os debates presidenciais, devendo ser dos poucos eleitores que têm visto esses debates (salvo os jornalistas e os comentadores), tal o nível de interesse que suscitam.


Por essa hora deitam-me e pelas 22h30 vem um chá e os comprimidos, nos quais se incluem a pílula milagrosa que me faz dormir.


Pelo meio e sem hora prevista temos ainda 15 minutos de fisioterapia (de manhã em geral), e um tempo variável de conversa com a psicóloga, bem como uma verdadeira "visita de médico" diária, que pode demorar de 1 a 5 minutos.


Esta é a minha organização do "trabalho" diário, como se estivesse num escritório . Se pelo meio vier a notícia que espero, melhor, mas a espera saiu da minha rotina.


Este escritório tem, no entanto, uma particularidade. O empregado está preso à parede, como nos tempos da Inquisição os presos eram agrilhoados às paredes húmidas das masmorras.


Bem, também não exageremos...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Mais ofertas


Já que falei de ofertas, ontem também recebi da Maria Augusta, o livro de Chico Buarque, "Leite Derramado" e sobre o qual alimento as maiores expectativas. Mais tarde quande ler voltarei aqui ao assunto.
Trata-se de um autor de que muito gosto como cantor e escritor das letras sempre inspiradas das suas músicas, mas também, desde que li o seu anterior livro "Budapeste", passei a apreciar como romancista.
Tenho mesmo a sensação que a sua fase de escritor de canções tenderá aos poucos a dar lugar a um grande escritor da língua portuguesa.
Mais tarde veremos.

Uma belíssima oferta feita ontem pelo meu amigo Luis Mira, que me visitou aqui no hospital. Um album com todas as capas e informações acerca da "Discografia Portuguesa em 45 rpm" dos Beatles. Trata-se de um verdadeiro objecto de coleccionador, com uma apresentação gráfica irrepreeensível, e um trabalho de recolha de informação excepcional. É da autoria de Abel Soares Rosa (amigo do LM), e os fundos da sua venda vão para a associação ACREDITAR. Que linda prenda de Natal para todos os irredutíveis dos Fab Four, nos quais eu me incluo. Diria que esses irredutíveis acreditam na infalibilidade artística dos The Beatles, tal como os católicos acreditam na infalibilidade do Papa. Tudo o que criaram é bom e vale a pena ser ouvido.


Para além da capa do album que reproduzo acima, e que é uma cópia fiel das velhas capas amarelecidas pelo tempo, incluo aqui para que quiser ouvir um dos EP lá referido (recordo que os EP tinham 4 músicae e custavam à altura 45 escudos (1967), e foi o primeiro disco que comprei na minha vida, tinha então 14 anos, feito o 5ºano do liceu e como prenda os meus tios ofereceram-me um gira discos mono, caixote cuja tampa se separava e servia de altifalante, já usado, pois decidirem comprar os então em moda móveis com gira discos e rádio incorporados que ficavam bem no recanto da sala. Este disco EP é "Penny Lane", mas que continha também "Strawberry fields forever ", "Tomorrow never Knows" e "Love you too". Uma pérola.


Bem haja pelo prazer que me deste.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

A relação dificil dos enfermeiros com os interruptores


Para a maioria dos enfermeiros os interruptores são um adorno. Uma vez aceso não serve para mais nada. Cada cama tem uma luz individual, mas essa não substitui a belas 8 lâmpadas fluorecentes do tecto, que permanecem acesas das 7h às 23 ou mais. Se se espera um doente, é preciso a luz acesa. Se se vai transferir um doente, sem a luz acesa não pode ser. Felizmente aqui no meu canto já consegui convencer os enfermeiros da inutilidade, e pior, do incómodo de tanta luz, e a mim procuram respeitar o meu desejo, mas também aqui só há duas camas. Não se poderia acender quando necessário, apagar se não faz falta, e manter luzes individuais para os doentes que precisem de usufruir delas? Não, não pode ser, porque para o enfermeiro o interruptor só funciona num sentido, para acender! Para apagar é preciso prova assinada e juramentada de que nas próximas 12 horas não volta a ser preciso acender. Tanto se poupava, tanto se ganhava em comodidade, se fosse feita uma sensibilização à volta deste tema. Tão simples!!!
E como diz o outro senhor careca e rechonchudo que aparece em todo o lado "o ambiente agradece".
PS: não descarto que o facto de nos espaços comuns, como corredores, a própria instalação não ter circuitos separados, o que permitiria apagar parte deles, durante a noite, por exemplo, seja um factor de dificuldade e de incentivo a maus hábitos.

Em defesa da musculatura....


Não sei se já referi mas tenho tido também umas sessões de fisioterapia, que visam sobretudo a respiração e a defesa dos músculos, cuja imobilidade e pouco alimento, conduzem a uma situação de atrofio galopante. Tenho tido até alguns progressos pois já vou a banhos a pé (ou pelo meu pé, melhor dizendo), e é nitido que os músculos, apesar da magreza, lá se vão ainda notando por debaixo da pele, bem coladinhos aos ossos.

Agora a chefe das fisioterapeutas, a Drª etc e tal, decidiu também que fizesse terapia ocupacional. Coisas lúdicas diz ela. Estou um pouco desconfiado, pois não sei se me vai pôr a brincar com uma bola, ou a atirar patinhos de borracha e a jogar à batalha naval. Mas como chefe é chefe, esperemos para ver essa "nova" terapia que me vai ser "proposta" e de que nada me disseram nem explicaram.

Parece, segundo ouvi dizer, costuma ser muito aplicada em doentes a recuperar de AVC, o que ainda não é o caso. Entretanto espero que a fisioterapia prossiga, em defesa da minha "musculatura" que precisa de não definhar.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Apoio psicológico


Pois é. Neste local nada falta, pois até apoio psicológico estou a ter. Talvez algumas pessoas que conheço me tenham ouvido duvidar da eficácia de tais apoios. Dizer que " qualquer conversa com um amigo o pode substituir". Não será de todo mentira, mas que o apoio psicológico tem muitas potencialidades tem mesmo.
Alguém que fala comigo quase todos os dias, e que faz as perguntas que me fazem pensar acerca da minha vivência neste local, a quem posso fazer as perguntas que me perturbam, que escuta aquilo que digo e procura reformular em novas abordagens, que procura relacionar a presença neste local, com as experiências de vida.
Alguém que entra na porta e me causa agrado. Trata-se de uma abordagem diferente, em que a conversa nada tem a ver com a que temos com os nossos familiares ou amigos. É uma conversa em que se sente um sentido, uma lógica uma organização, que não me violentando, me faz sair alguns dos demónios que me atormentam num local onde a espera é interminável e o desfecho incerto.
Deu-me também algumas ideias úteis que tento aplicar para melhor ultrapassar momentos em que a cabeça vai para onde não deveria ir.
Se se podia estar aqui sem apoio psicológico, podia, mas não era a mesma coisa !

domingo, 19 de dezembro de 2010

Natal dos que ainda não lêm este blog

Já aqui falei do meu Natal, um Natal simples e com esperança. Vou agora falar para aqueles que ainda não lêm estas palavras. Rafael, 1 ano, viciado no colo da mãe, João Miguel, 3 anos, o traquinas, Carolina, 6 anos, energia e manha concentrada num corpo de passarinho, Joana, 13 anos, teenager assumida, discrição e inteligência. São os netos. Dedico ainda a pessoas que não lêm pois vêm aqui muitas vezes e me acompanham ajudando ao meu conforto, a Maria Augusta, a Inês e a Joana. Pois para eles vai também o meu pensamento e a partilha deste Natal muito simples, pois sei que esperam a qualquer momento que entre pelas suas casas restabelecido e pronto a "brincar" com eles, cada um à sua maneira. Para eles deixo este vídeo de Natal que já deve correr mundo, e tem som.

sábado, 18 de dezembro de 2010

O meu médico


Vocês, estimados leitores, já viram o que é ter, numa instituição que deve ter centenas de médicos, aquilo a que chamamos "o meu médico" ? E seguramente existem mais de dez que se ocupam de mim, cada dia uma cara nova, um com bata, outro de calças de ganga, homens e mulheres, que me fazem as mais diversas perguntas, algumas contraditórias entre si, auscultam à velocidade da luz, fazem caras simpáticas ou fecham-se num ponto de interrogação. Mas esses não são "o meu médico". Esse é outro. Não direi o nome, ele próprio não gostaria, é discreto, acompanha o meu presente em nome do meu futuro (o transplante), quase todos os dias me visita, nem que seja um aceno da porta da enfermaria, faz-me poucas perguntas, mas coerentes, com o meu objectivo final, fala pouco, mas em poucas palavras diz o que é preciso (nem demais nem de menos), responde a qualquer pergunta que faça, mesmo delicada, com sinceridade e um ligeiro sorriso nos lábios, derrama esperança pela sua tranquilidade que não pelas suas palavras que são sempre parcas e resumidas ao essencial, sinto empatia com ele, mas tal não deriva de palavras mas de actos simples e cativantes. Que bom eu poder ter, nesta instituição de centenas de médicos "o meu médico" e ele ser assim.

Natal simples


Lembram-se do "Natal dos simples", de José Afonso, que começava "Vamos cantar as janeiras/vamos cantar as janeiras/por esses quintais a dentro vamos/ás raparigas solteiras", pois eu este ano vou ter um destes natais simples . Se não houver nenhuma "intercorrência", como diz na sua linguagem o meu médico, passarei o Natal e Ano Novo aqui neste hospital; única dúvida, será no 2º andar (onde me encontro), ou no 3º andar (cirurgia, onde queria ver-me rápido).

A minha relação com o Natal costuma ser agridoce. Para estar com uns não posso estar com outros, e este ano tal não se irá passar, o que é uma vantagem.

Outra ainda, como vejo pouca televisão e só ouço rádio sem publicidade, nem parece Natal. Aquele Natal que bombardeia todas as horas e minutos com as ofertas, as promoções, os telemóveis, as bonecas que arrotam e fazem cócó artificial sem cheiro, ou os exterminadores que matam de forma implacável, este ano para mim não existe.

Fica apenas a recordação do Menino Jesus e do sapatinho pequenino onde mal cabia uma prendinha. Agora o sapato é posto em cima de um monte que chega para cima do meio da parede e falta sempre aquela prenda que afinal valia mais que todas as outras juntas, e que ninguém se lembrou de dar.

Eis o Natal que vou ter este ano: um Natal dos simples.

E para não dizer que fui forreta que não me lembrei daqueles que vêm a este blog com regularidade, aqui deixo dedicado a todos um poema de Natal do autor que terminei agora de ler e já citei várias vezes, Fernando Pinto do Amaral. Reparem que palavras tão simples mas tão cheias de profundidade natalícia, e que a crentes e não crentes interrogam.


"Cai a noite está frio
e súbito perpassa
por nós um arrepio
a anunciar a graça


de sermos talvez mais
que simples humanos
decifrando sinais
que não passam de enganos


Cai a noite serena
sobre a nossa agonia
e repete-se a cena
que de novo inicia


uma história de amor
entre os homens e alguém
talvez muito maior
talvez homem também


Cai a noite e eu espreito
o que em silêncio brilha
no escuro do meu peito
no olhar da minha filha."


É uma visão muito intima e pessoal do Natal que nos remete para "uma história de amor/entre os homens e alguém/talvez muito maior/talvez homem também". Procurarei pensar nisto neste Natal hospitalar virado decerto para a introspecção e menos para as actividades festivas. Já agora Bom Natal a todos !!!!!

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Imobilidade


Um dos problemas que me afecta aqui é a tendência para a imobilidade, pois os meus movimentos resumem-se a cama cadeirão e vice versa, e idas ao WC para banhos, e ainda de cadeira de rodas. Perdi nestes 3 meses oito quilos, mas o mais preocupante é perder a massa muscular, embora esteja em sessões de fisioterapia, vai desandando, o que me levanta dificuldade em estar de pé ou andar.


Pois agora, que me tenho sentido melhor já vou ao WC por meu pé, e sinto-me seguro nessas pequenas deslocações. Parece pouco para um saudável, mas aqui aprendi a valorizar estas pequenas victórias sobre a minha incapacidade.


Muito se aprende aqui sobre a vida, a sua fragilidade, e de quanto os nossos pequenos gestos diários são o resultado de um mecanismo de relojoaria em que tudo tem de se encaixar e funcionar como um todo, uno, perfeito e viável.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Profissionais


Há uma questão que não tenho falado aqui, mas hoje que estou bem disposto e já vou no terceiro post, é o dia.

Tenho de referir o profissionalismo e a competência destes homens e mulheres da Unidade de Cuidados Intensivos/Intermédios de S. Marta. Numa altura em que a tendência é vilipendiar o SNS, o serviço público, esta gente arregaça as mangas e em permanência corre até à exaustão para que nenhum pedido de ajuda ou socorro fique sem resposta.

Reconheço que este serviço não está imaginado para doentes de longa duração, como é o meu caso, sou aqui caso único neste momento, mas isso não impede que, com os meios que têm, e tantas vezes são escassos, se excedam em simpatia, amizade e se desdobrem em esforços.

E aquilo que eles aturam, meu Deus... só estando aqui se pode ter ume noção do estado de certos doentes, e do seu comportamento, exigência que roça a má educação (talvez por descompensação, desorientação), mas que não os faz perder a cabeça.

Não imagino certos enfermeiros de outros hospitais que conheci sobreviverem a uma semana aqui, tal o ritmo. E que grande coração é preciso. Já ouve vários óbitos, outos doentes com urgências imediatas (eu próprio...)

Mas para não dizer só bem, há algo que bem podiam melhorar, o ruído. Sei que são quase todos muito jovens, mas por vezes excedem o neccessário, e tornam a unidade insurdecedora, a que só os meus tampões de ouvidos, que coloco com frequência, vão resistindo como podem. Aqui poderíamos dizer que para o doente o silêncio é de ouro, mas para estes grandes profissionais é apenas de lata.

Obrigado a todos eles.

Agradecer cada dia

Tenho já dito aqui neste blog que a minha estratégia passa por apenas agradecer o dia que me foi concedido, e ter sido feliz nesse dia, e pedir a um deus, com quem me relaciono directamente, que me conceda ver a luz do dia de amanhã. Só assim, sem planos elaborados, sem objectivos a prazo, se pode aceitar sem revolta (que jamais senti), estes dias mais dificeis.
Parece que a insónia de que falei ontem começa a estar dominada, graças àqueles pans que vou ingerindo (será que sem eles teria chegado à insónia???), e isso é meio caminho para um dia mais desperto e de cabeça mais limpa.
Continuo com o Fernando Pinto Amaral, e não resisto em citar parte do poema "Agenda" no qual meditei e todos deveríamos meditar:

"Marcas de novo os dias mas ignoras
as leis dessa contagem regressiva
Hoje sabes apenas que nenhuma
agenda te dirá qual a exacta
data do decisivo derradeiro
encontro Desconheces
que páginas futuras deixarás
em branco "

E assim acontece


Morreu o jornalista Carlos Pinto Coelho. Dificilmente alguém neste país pode ter passado ao lado deste "monstro" da comunicação, goste-se ou não do seu estilo comunicacional, e confesso que não era dos meus preferidos, na sua voz pausada e em que as palavras eram pronunciadas uma a uma. Não interessa!!! o que interessa é que este homem fez mais pela cultura em Portugal que todos os intelectuais e pseudo-intelectuais juntos.

Vi-o em público em Junho deste ano, numa sessão organizada pela Biblioteca Municipal de Lagoa, e recordo a sua verve fácil, o interesse das suas palavras, algum humor velado nas suas intervenções. Eu próprio tive oportunidade de lhe fazer algumas perguntas a que amávelmente respondeu, como a todas as outras que lhe fizeram. Exemplo de gentileza, um "gentleman", mesmo quando criticava. Desde que um senhor para quem a cultura se resume ao boxe disse "se queremos dar cultura aos portugueses, mais vale pagar uma volta ao mundo a cada potuguês do que pagar o programa Acontece" que este homem banido da TV se dedicou a divulgação cultural em rádios locais, sempre ao serviço desta causa. Os artistas deviam estar-lhe todos agradecidos, e só em Portugal é que um comunicador desta dimensão se encontrava fora das quatro estações generalistas, e das outras em sinal fechado.

Aconteceu agora o que não devia ter acontecido, e ainda por cima no 3º andar de S.Marta, aqui mesmo por cima ao local onde me encontro. Deixa-nos uma grata lembrança.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Lutar contra a insónia


Agora apareceu um novo inimigo nesta guerra: a insónia. Não dormir, delirar, chegar a manhã mais cansado do que o adormecer.

O que se resolveu durante umas semanas com Lorezepam 2,5 mg, acabou por passar a 5 mg ( dose para adormecer o cavalo do Lucky Luck), e agora passou-se aos ansiolíticos. De Furosepam, a Zolpidem e agora um tal de Bromazepam, já percorri nestes últimos dias todos os Pans disponíveis, menos uma porrada na cabeça pelo Capitão Gancho, companheiro do Peter Pam. Parece que este Broma... ainda é o menos mau. Esta noite pôs-me a defender a minha mãe de uma predador sexual (coitada que nem é para aqui chamada), a viver não sei com quem num bairro degradado de um subúrbio de Sinn City, e, um pouco melhor, a passear com uma companhia que não identifiquei, numa cidade que parecia Berlim, ou outra da Alemanha, onde apreciei os monumentos e os locais donde foram retirados os judeus à força, o que apreciei (os locais claro...), até que ao virar da esquina deparo com uma marginal de mar encarpado que tudo ameaçava levar. Berlim ???? não me parece que o mar lá chegue, mesmo que o Hitler tivesse querido. Tudo isto e muito mais que não conto publicamente, agora dormir e acordar descansado é que não.

Pode ser uma fase, como me diz a psicóloga aqui de serviço e que me acompanha com muita simpatia e competência, de lavagem, de limpeza de algumas más experiências dos 15 dias de febres e debilidade, entretanto ultrapassados.

No meio desta confusão e desta luta contra a insónia só me apetece gritar bem alto ABAIXO OS PANS VIVAM OS PINS.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Domingo na cidade


Estes domingos passados na cidade são um pouco diferentes daqueles da canção que diz "Pinta os lábios de vermelho/passa meia hora ao espelho/mostra-me do que és capaz/hoje é dia de passeio/e enquanto eu me barbeio/passa o pente no rapaz".

Na realidade o domingo é o dia mais chato do hospital. O movimento de doentes aqui é muito reduzido, salvo raras urgências, tudo decorre com um ritmo lento e sem graça. A rádio não dá os meus programas preferidos, nada, nada, de anormal.

Mas hoje vou ter uma excepção a esta regra. Um grande acontecimento vai passar-se comigo aqui no hospital. A Inês vai trazer-me para o almoço, e eu vou devorar como caviar, um Double Cheese Burger com batatas fritas da MacDonald. Que acontecimento!!!! só não bebo Coca Cola por causa dos gases. E tudo isto sob o alto beneplácito da dietista de serviço, que me confessou sussurrando, que ainda ontem o jantar dela tinha sido ums coisa de nome estranho "rapper", será? também de igual proveniência.

Este acontecimento de domingo vai passar-se aqui no cadeirão habitual e penso que a minha filha aproveita e come comigo semelhante iguaria.

São convidados ???

sábado, 11 de dezembro de 2010

Reencontro



Após alguns dias, não poucos de ausência, eis-me de novo a dar novidades. Após o domínio da tal bactéria, e paragem de um antibiótico específico que tomei 14 dias, e que fez juz ao ditado, "não morre do mal morre da cura", comecei a sentir-me com mais força, a comer melhor e a poder começar a fazer aqulas tarefas que me mantinham vivo, como vir aqui ao blog. Não sei se por muito tempo, pois estou aqui em S.Marta desde 29 de Setembro e nada. Já ouve aqui um transplante de uma rapariga qque esperava à mais tempo do que eu , no dia 24 de Setembro, e já caminha por seu pé fora do isolamento. Isto dá-me ânimo de que a minha hora também vai chegar, e não vai demorar muito.


Aliás todos os dias antes de adormecer agradeço o dia que me foi concedido, e peço a deus que me deixe ver a luz do dia seguinte. Nada de médios ou longos prazos; prá semana não me interessa nem quero pensar nisso. Apenas mais um dia. Pois sei que num desses dias alguém vai entrar naquela porta e anunciar-me a operação.


De resto o meu ânimo permanece alto, agora que como melhor falta ainda dormir bem. Não acertaram ainda com a medicação adequada e passo boa parte das noites em branco.


A todos aqueles que continam visitando o meu blog, mesmo sabendo que podem não haver novidades peço que comigo mantenham a perserverança e visitem. Há sempre um dia em que a minha saúde mental me obrigará aqui vir para deixar palavras a todos vocês que não desistem de mim. Peço apenas que comentem nem que seja para dizer olá! nem sabem o bem que me fazem. E TODOS podem comentar sem problemas todos mesmo, já não há razão que impeça ninguém pois este blog só interessa mesmo aos meus amigos, e desses preciso de todos sem excepção.


Dedico a todos esta parte do poema de Fernando Pinto Amaral que estou a ler:


"Cada dia promete o infinito em meia dúzia de palavras

o amor, a vida, o tempo, a morte, a esperança, o coração"

Mas cuidado com a segunda parte do poema:
"Repete-as, repete-as muitas vezes em voz alta

e escuta a sua musica até não quererem dizer nada"

domingo, 5 de dezembro de 2010

Breve retorno

Após uma semana cheia de complicações, que nem conto, parece que hoje pela primeira vez me sinto melhor, para estar aqui a escrever. Desde arritmias a febre tudo me aconteceu, e com isto o meu transplante pára, até resolução dos diversos problemas. Já fiz análises e espero muito em breve retomar o processo. Depois é sempre uma sorte, entre haver dador compatível e eu poder receber. Um abraço a quem me lê e procura notícias quando aqui falho.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Relatório de guerra


Todos temos ouvido falar das perspectivas que se abrem à arte da guerra. Ciber, bio, limpa, suja, etc etc. Eu nos ultimos dias tenho estado a ser vítima de uma das chamadas novas, mas que é bem antiga: a guerra bacteriológica. Foi isso que me afastou ontem do ciber-espaço para as profundezas da almofada. A invasão já começou há alguns dias, tendo os microscópicos batalhões inimigos penetrado por um cateter, e tomado posições.


A reação não se fez esperar. Coração aos pulos, febre alta, defesas para cima deles. O problema é que as defesas eram insuficientes e inadequadas, insuficientes pois o coração está em serviços mínimos, inadequadas por não identificação de quem era o inimigo.


Só na 4ª feira passada, os serviços de espionagem consegiram desmascarar o inimigo, após ter sido aprisionado numa seringa, metido num frasco e feita uma hemocultura. Mas a invasão mantinha-me a febre, e o coração disparava em vão com pistolas de água.


A partir dessa data chegou o novo armamento pronto a ser usado dentro de uns saquinhos transparentes, antibiótico, que passou a ser usado no lugar do anterior. A luta iniciou-se e teve ontem uma fase complexa em que não percebia se ís ganhar ou perder. O dia passou-se com informações contraditórias a chegar à minha almofada (onde se instalou o posto de comando).

A cabeça concentrada na guerra e nas suas possíveis consequências.


Durante a noite aparentementemente o inimigo começou a ceder, e hoje de manhã ainda havia luta. Mas a febre baixa indicava que o essencial das posições tinham sido salvaguardadas.


Vamos agora passar à fase de busca e aniquilação, de posições que possam ter ficado nas mãos inimigas.


Claro que no meio disto não posso actualizar o blog.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A greve geral é....

Um sucesso garantido, basta que os transportes e as escolas parem e ninguém se movimenta. Um contributo muito pequeno para a perda de produção num país individado, mas é mais uma pedrinha na engrenagem. Totalmente inútil por ser apenas política, exigir mudanças de política, mas como se sabe neste país a política muda-se pelo voto, e o mais certo é dar mais uma mão a um senhor de nome de Pedro Passos Coelho , que talvez faça umas mudançazinhas, mas não as que a CGTP e o PCP gostariam. Interessante porque um dia de descanso é sempre uma boa oportunidade para ir fazer compras de Natal. Os centros comerciais e as grandes superficies agradecem, pois os seus precários nem sonham em aderir. Finalmente, é preferível fazer a greve geral com "toda a tranquilidade" do que andar a partir montras, incendiar carros e destruir património como na Grécia. Assim sendo VIVA A GREVE GERAL !!!!

Oportunistas !!!


Como se aperceberam os meus leitores habituais, não tem sido possível escrever todos os dias, pois fui acometido de um estado febril, que me deixa um tanto ou quanto atarantado. Agora já descobriram a origem. Um ataque oportunista de um ou mesmo de um batalhão de micróbios que normalmente estão na pele, e que através do cateter que tinha na virilha, decidiram penetrar para procurar ali melhores dias. Por isso a febre se prolongava já desde 6ª feira resistindo a outros antibióticos. Só com resultado de hemocultura feita ao cateter entretanto retirado se tiraram as conclusões acertadas.

Entretanto uma notícia que me acalenta: uma rapariga de cerca de 30 anos, também aguardava transplante aqui na mesma unidade e embora estando em pior estado que eu, estava com a mesma prioridade, e não competia comigo por ser de diferente grupo sanguíneo. Pois foi tranplantada ontem. O meu dia também chegará, mas convém que estes ou outros oportunistas não chateiem.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O tempo e o motivo

Ontem não pude escrever no blog, pois apareceu febre, devido a constipação, ou outra coisa qq. E era um dia em que devia ter escrito algo, pois fez exactamente 2 meses de internamento consecutivo, uma semana em Beja e o restante em S. Marta. Isto quer dizer que chegamos a um ponto em que parece que estar aqui é um objectivo em si mesmo. Começa-se a perder a noção do tempo e do motivo pelo qual se aqui está. O tempo é a simples seqência das noites e dos dias, mais ou menos iguais, e o motivo parece estar a cumprir uma expiação.
Mas felizmente sei que não, sei que vai chegar o dia aprazado, e nesse dia tudo irá correr muito bem.

sábado, 20 de novembro de 2010

Cimeira e cimeiras ...


Um pouco de política aqui não faz mal nenhum, para recordar algumas memórias adormecidas. Sou daqueles que em 1974/5 desfilou muitas vezes sob um enorme cartaz onde se dizia "Nem Nato nem Pacto de Varsóvia, Independencia Nacional". E disso não me arrependo mesmo nada. Manifs na Avenida, concentrações na Praça do Comércio, pichagens, algumas ainda restam nos muros de Lisboa.

Ora as actuais manifestações contra a Nato, uma decorre hoje nada têm a ver com esses tempos.

O Pacto de Varsóvia, desapareceu, e os países da chamada esfera soviética quase todos se acolheram debaixo do guarda chuva da Nato. Agora nada de ilusões, pois a Rússia continua a guardar os seus arsenais, e novos perigos surgem, de carácter mais local, como o Irão, Israel, a China, a democrática Coreia do Norte, o Paquistão, a India, todos detentores de tecnologia nuclear (ou quase), e quem sabe que mais, ou mais global, como o terrorismo islâmico, ou outros, que já mostraram a sua capacidade.

Ainda assim prefiro a Cimeira de Lisboa (não precisavam era de exagerar...) do que as cimeiras a dois contra as quais desfilei quando tinha 22 ou 23 anos.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A noiva judia


Terminei agora a leitura deste pequeno livro de contos de 1992 de Pedro Paixão. Tratam-se de contos quase poéticos e quase todos eles versando uma das relações mais difíceis e antigas do mundo: a do homem com a mulher. Vou deixar aqui um texto para se ver o tipo de linguagem.



"Deixou só uma rosa que depressa feneceu. Mais não recordo para além de certo movimento desastrado dos corpos e uma estranha secura na boca.

E se mais houvesse não bastaria. A satisfação abre também as suas portas sobre nada. Ficamos quietos e não sabemos. Comemo-nos ns boca e no peito. E por detrás de tudo isto há um fundo que é uma paisagem gelada.

Se mudamos de ideias é porque se vão empurrando, uma a uma, para fora. A casa é estreita. Se não fose o mudares subitamente de cara desistia. Esteja á sua vontade. Pode fazer, minuciosamente e sem pressa tudo o que quiser.

Já reparou certamente que comigo não vai a sítio algum. Nem de passear gosto. Continuo imóvel diante da janela do quarto de minha mãe. E o meu inverno chega-me.

Sabendo com precisão que não ficou nada criamos a ilusão da memória. Para isso servem as rosas. E as horas são todas iguais. Por isso vem sempre que queiras. Se te esperasse não te encontrava. E já houve um mistério nisto tudo que desapareceu. Por isso volta a qualquer hora. A casa estreita ond me deito não é minha. Eu quase gosto dsta vida que tenho.

Não queremos saber do que se passa lá fora. Definitivamente terminaremos. Os braços continuam caídos sobre o tampo da mesa. Mas de quem? As palavras que ouvimos são desfeitas. As palavras sagradas seriam soluços de uma ave pousada na tua cabeça. Mas não existem palavras sagradas, claro. Amanhã recomeçaremos.

Não te esqueças que se uma parte é ilusão a outra é verdade. Foi mesmo ela que te amou. Mas há coisas que se não dizem. Como estas. E, claro está, não vale a pena pensar nisso e não se pode evitar. As coisas inúteis são preciosas para as almas sem sossego como as nossas. É quase belo agora. A noite que caiu guarda tudo nas suas mãos fechadas eo brilho dos teus olhos é o de uma estrela de que não me lembrarei. Dorme agora."


"Carta a José" de Pedro Paixão, do livro "A noiva judia"


Espero que gostem...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Tudo lhe será retirado ?

Um dos meus gostos preferidos é ouvir música. Pouco a pouco a minha cabeça começa a ter dificuldade em suportar mais do que alguns minutos com o iPod. Lateja e parece que o sentimento de prazer se torna numa pena.
Não é que não continue a vir aquela lágrima insistente quando se inicia a "Milonga del Angel" do Astor Piazzola, ou a alma empolgada com a "Eroica" de Beethoven ou a 25ª sinfonia de Mozart, a pele de galinha do 2ºandamento do Concerto 21 para piano e orquestra de Mozart, ou aquela nostalgia quando ouço o "Cinema Paradiso" pelo Haden e Metheny, tudo isso se mantem, mas é um prazer curto, que rápido cede a uma necessidade de parar.
A minha cabeça é mais forte, mas aqui não para fazer aquilo que mais desejo. Será que apostou em que "tudo lhe será retirado?", ou antes "tudo será posto em suspenso?"
Ela é quem manda e espero que opte pela segunda opção e me devolva tudo o que me quer retirar.

A hospitalite


Há aqui um enfermeiro que, por graça ou a sério, não sei, diz que começo a sofrer de hospitalite. De facto fez ontem 7 semanas que estou aqui em S.Marta, a que podemos somar mais 5 semanas desde Julho em Beja, intercaladas com estadias em casa, quase sempre na cama ou próximo dela, e cada dia a sentir-me pior que no anterior.

Em que consistirá esta perigosa doença? Ninguém me diz, mas deve ser fácil indicar alguns sintomas.

Comecemos primeiro pelo contexto. Espaço confinado a uma cama e a um cadeirão, entre os quais se revezam os movimentos, banhos acompanhados e a acabar com a língua de fora, no mesmo espaço se dorme, se sua, se urina e se fazem fezes, e mesmo ao lado come-se (não tudo ao mesmo tempo bem entendido...), caras iguais que se revezam, comida do melhor restaurante aqui da cave, paredes amarelas tecto branco, luz do dia que apenas se adivinha. Podíamos chamar a isto uma prisão, pois também estou preso à parede por sete fios, que embora frágeis não convém forçar, mas não é...

Assim os sintomas são de claustrofobia, quando temos comida a reacção em vez de fome é de náusea, quando temos sono, a reacção é de "espertina", e só o Lorenin 2,5 nos dá a paz dos anjos, pois de noite levanta-se voo deste local, para nuvens desconhecidas, junto de pessoas conhecidas ou não, que nos fazem esquecer o local. Aterramos, ouvimos os plim plim dos monitores e renova-se a consciência.

Apesar de tudo as noites parecem melhores que os dias. Pelo menos não nos enjoam.

Interrupção

Durante dois dias tive problemas de acesso à internet, que já estão resolvidos. Hoje vou retomar, e acalmar alguns que me seguem que possam pensar que algo de mal tenha acontecido. Não, a esperoterapia continua...

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Medos


Ontem há noite a tensão subiu para 12/7 e as pulsações chegaram a 70. Durante a noite também acordei com 70 pulsações. Para o mais vulgar mortal isto são excelentes resultados, mas para mim é quase hipertensão, e taquicardia, dado que os meus valores de tensão usuais são 9/5 e as pulsações, quando chegam a 50 já é nos melhores dias.

Vem isto a propósito de um dos meus maiores medos, as arritmias. Verdade que tenho um cardiodisfibrilhador implantado, mas como resistirá o meu coração, que está preso num fiozinho, se levar assim um electrochoque de um "porradão" de volts? Será que levanta de novo a cabeça ? Ainda me lembro daquele dia de Julho em que acordei cm 172 pulsações, o que referi num post lá mais para trás.

São alguns medos que não controlo, embora este seja o local onde os riscos que lhe estão associados, podem ser controlados. Esse o antídoto para o medo. Readiquire-se a confiança e até parece que tudo vai bem "no reino da Dinamarca".

domingo, 14 de novembro de 2010

O prazer de pintar


A propósito de um telefonema que recebi ontem da Manuela, a minha mestre da pintura, recordo os prazeres que me têm sido retirados nestes últimos meses, entre eles, o prazer de pintar. De passar as tardes misturando cores, fazendo e corrigindo, outras vezes recuando para outras tonalidades, ou destruindo o já feito; em casa em geral este prazer associava-se ao de ouvir música baixinho, muitas vezes Mozart, muito inspirador !

Claro que espero poder voltar, mas penso que muitos meses ainda faltarão.

Recordo também o prazer das aulas das segundas e quntas, dos colegas talentosos, dando o seu melhor, o enorme talento do Brian, a música do Arnold, o café do Jack, a paciência infindável da Feliciana, o traço brilhante e místico da Anne Carolina (vejam no blog Gota Aurea), os pormenores da Cristinalda, o sorriso da Pamela, a impaciência da Maria José, as pétalas coloridas da Hannia, a June, enfim que me desculpem aqueles de que não referi, pois a minha cabeça também está enfraquecida (ainda ontem não deu para o post).

Sei que alguns me lêm aqui, o que lhes agradeço. É a forma de estar-mos em contacto.

Já agora deixo aqui dedicado a todos um quadro que bem conhecemos. Deve estar na parede da sala pois a ano passado "de castigo" a Manuela fez-nos copiá-lo em colectivo. Para mim até foi um prazer.

sábado, 13 de novembro de 2010

Cansaço

Ontem sexta feira sentia-me particularmene cansado ao longo de todo o dia. E como é normal, quem está cansado descansa... foi o que fiz.
Hoje a coisa parece mais equilibrada, vamos ver se dar para um post.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Desafios de uma vida


Fizeram-me chegar hoje o endereço de um blog que está a ser feito por uma pessoa de Pombal, o Idílio, que se propôs, e está a concretizar uma viagem de bicicleta do Alaska até à Patagónia. A viagem iniciou-se em Julho em Inuvik no Alaska, e neste momento o ciclista solitário acabou de entrar no México pela fonteira de S.Diego, Tijuana.


O tempo que estima para a viagem é de cerca de ano e meio. Entrtetanto vai contando as peripécias da sua aventura, e deixando indicações e fotografias dos locais por onde vai passando.


Daqui da minha cama de hospital de imediato aderi à ideia e vou, enquanto puder, acompanhar o Idílio na sua viagem solitária.


Questão habitual: o que pode levar alguém a abandonar as "obrigações" para se dedicar a tal tarefa. Enriquecer-se, de certeza, mas e como encarará o risco que tal viagem encerra? Passar zonas de perigo, avarias mecânicas, problemas de saúde. Julgo ser a vontade indomável da superação.


Grande exemplo para mim que também vou precisar de superar uma viagem plena de riscos. Sem medos, para lá do horizonte nova estrada vai surgir.


Aqui está o endereço para espreitar http://bacalhaudebicicletacomtodos.blogspot.com/

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Procura-se país em bom estado para transplante urgente


Portugal pediu hoje mais 1250 milhões emprestados... ou como se diz, "vendeu" dívida nos mercados financeiros a um juro inimaginável de 6,8%. O mais interessante é que ao final da tarde esse juro já era de 7,3%. Não percebo nada de finanças, neste momento nem a minha pensão sou capaz de gerir, mas fico com a ideia que uma entidade especuladora que tenha comprado 200 milhões de euros em obrigações às 11 da manhã, e vendido às 6 da tarde, terá ganho em poucas horas 1 milhão de euros sem levantar uma pedra que seja, e contribuído com mais machadadas para a imagem do país. Estou certo ou estou errado?...

Quem dizia que a aprovação do orçamento ía por tudo na ordem, e por isso fizeram um orçamento típico de um "inverno soviético", que vai provocar recessão (só hoje em duas empresas que fecharam foram mais 600 despedidos), terá, em calhando, de responder à seguinte pergunta: querem morrer do mal ou preferem morrer da cura ?

Parece que este país também está a precisar de ser transplantado...

Dependências


Estar dependente, é o que caracteriza o estado em que me encontro, pois para quase tudo preciso de ajuda, para o banho, para ir e vir do cadeirão, para algumas necessidades fisiológicas, para vestir um simples pijama, no limite para ter algum bem estar e alguma actividade, como ler ou escrever, dependo de uma droga que me puxa para cima de nome "dobutamina", assim uma espécie de cocaína, mas em bom...


Outra coisa é "sentir-me dependente". Tem mais a ver com o que vai no meu espírito e na relação que aqueles que me rodeiam estabelecem comigo. Aí, salvo um caso ou outro muito excepcional, de um enfermeiro/a na profissão errada, a generalidade do pessoal tudo faz para esbater este sentimento, tudo fazendo para ajudar mesmo brincando com a situação.


Desta maneira é fácil sentir-mo-nos apoiados e não dependentes.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

A propósito de ostras chegamos à "choucroute"


Cá vai a historieta prometida num post anterior. Em 1993 ou 94, eu e o Luis Mira pertencíamos ao Comité de Direcção da Fábrica de Setúbal da Renault, eu na Qualidade ele no Pessoal. Como acontecia todos os anos, o Comité ía em conjunto a França assistir a um evento do grupo chamado "Forum du Progrés", ou de nome parecido. E lá fomos 7 ou 8 membros, nos quais o Luis era a mais recente aquisição.

Tudo de avião, instalámo-nos num Hotel que creio ter sido o Pyramide na Porte S. Cloud, e toca a ir jantar. Decisão tomada, uma Maison d'Alsace da Boulevard des Capucines. O grande grupo abanca e de imediato se inicia pelas tais ostras francesas (por vezes terão adquirido a nacionalidade no prato), excelentes, das que o Luis diz no seu livro que não lhe passavam pela goela há já algum tempo.

Terminadas as ostras sem restrições passa-se à especialidade da casa, a célebre "choucroute" alsaciana, prato para estômagos fortes, e muito bem servida, uma só travessa para todos que teria mais de um metro de comprimento...

Já tudo saciado para além do razoável para a hora avançada, talvez onze e meia da noite, e regado a boa cerveja, passa-se a sobremesas. Coisas levezinhas para todos, frutinha fatiada ou parecido. Quando chega a vez do Luís pedir a sua, ele, com a maior calma do mundo diz "Para sobremesa quero uma choucroute".... O criado atrapalhado, acabou por constatar que era mesmo a sério, e lá acabou por mandar vir mais uma da cozinha, a qual se preparava para encerrar, que o Luis comeu regalado enquanto nós petiscávamos a frutita e pensávamos como se levantaria na manhã seguinte. Posso garantir que se levantou fresco como uma alface, apesar da ter comido a "choucroute" e ainda não ter dispensado uma sobremesa de verdade.

História de um cateter


Era uma vez um cateter que ontem ainda saía do lado esquerdo do meu pescoço. Coisa muito útil em muitas situações da vida. Por ali se retira sangue ao desgraçado (se as Finanças sabem...), se introduz toda a dose de líquidos, soros, medicamentos, etc.




Entretanto, por já lá se encontrar há algum tempo, decidiram mudar para a veia jugular que está no lado direito do dito pescoço. A colocação é quase uma mini cirurgia, com anestesias, batas verdes, resguardos a tapar o pobre diabo, agulhas, tubos, liquidos de várias cores.


Após tanta preparação, furaram-me ontem o pescoço em dois lados, esgaravataram, empurraram, forçaram, mas o dito cateter recusou todas as demarches e ficou a rir-se do médico, assim como uma vingançazinha, embora seja o paciente quem sofra.




Hoje de manhã decidiram voltar à carga. O mesmo arraial, mas a apção foi colocar na veia fémural, isto é, na virilha direita. Chega-se a vias de facto e o cateter sem qualquer dor, em poucos minutos parece que vai por si para o local desejado e lá ficou sem chatear ninguém. Uma pequena diferença, hoje tratou-se de um médico espanhol, e um internista...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Crónicas da América


Como prometido, e após ter concluído a leitura do livro do Luis Mira, vou deixar aqui algumas impressões.

Claro, tendo em conta o meu estado actual, a leitura destas crónicas fez-me voar daqui para locais distantes, por alguns momentos a cama, o cadeirão ficou para trás, e a minha mente fixou-se no parabrisas do "pequeno Chevrolet vermelho", a percorrer aquelas estradas intermináveis.

O livro, embora feito para "small circle of friends", apresentou-se-me como uma obra em capítulos, onde as memórias do Luis, a sua investigação prévia, as leituras que faz dos locais, a relação que estabelece com os grandes momentos da História, das grandes recordações de cinéfilo "obsessivo", e de apreciador da música americana, que faz sentido no seu conjunto.

O humor que lhe coloca, a linguagem coloquial, as referencias pessoais de falsa "autocomiseração" deram-me a sensação de que alguém no livro falava comigo.

Para além de um circuito de espaços, música e cinema, temos também um circuito gastronómico que vem a propósito. Assim bebemos com ele o rosé fresco ou o Pinot Noir do FF Coppola, comemos o "Steak and Lobster", comemos no Scomas's, jantamos com o Steinbeck ou petiscamos as ostras com luva de pedreiro (a propósito contarei noutro post uma história que o Luis Mira me vai perdoar). Tudo isto sem pagar um centimo...

Afinal também já fui dos america-cépticos, mas sempre apreciei a forma como a sua arte mais popular é capaz de romper, de se pôr em causa, trazer a lume as causas mais incómodas, e isso agrada-me muito.Não sou cinéfilo, mas gosto de muitos dos filmes que refere, e a música de que fala também me entusiasmou, e ainda hoje me dá gratas recordações.

No entanto não se desculpa, dizer mal do seu próprio clube, o Sporting, usar a palavra "peida" que é deselegante e o pior, não ter incluído um mapa que ajudasse o leitor a seguir o trajecto, por mais sinuoso que fosse, mas isso fica para a segunda edição.

Obrigado Luis por partilhares estas memórias

Precipício

Hoje tive a visita da psicóloga de serviço, no hospital. Gostei da falar com ela, mas levanta-se-me uma questão, como dizer a alguém que está na corda bamba, entre o risco e a salvação, que tem de descartar o risco e valorizar apenas aquela parte da corda à qual se vai poder agarrar para atravessar o precipício?

domingo, 7 de novembro de 2010

Perfeito domingo de manhã em UCIC

Após uma noite mal dormida em que me estavam a asfixiar para me matar, não é que descubro que o meu próprio braço se encarregava da tarefa, sendo assim fácil dominar o inimigo, inicia-se uma manhã que ainda vem escura. Aqui nós esperamos na cama o pequeno almoço, primeiro libertando o cheira que exala do corpo, sacudindo os lençóis várias vezes. Hoje, não havendo rádio com interesse, fui ao computador buscar o podcast do Contraditório de ontem da Antena 1 e copiei para este blog a entrevista do José Gil na totalidade, que não tinha ouvido, podendo assim ouvir quando quiser e partilhar com quem quiser.

O pequeno almoço, ao croissant e meia de leite feita com bica, aparece um surpreendente paposeco de ontem com um pacotnho da prestigiada e intragável Becel.

O banho foi rápido, mas para chegar ao WC é preciso um veículo chamado cadeira de rodas, senão não chego lá, mas a viagem foi rápida e confortavel. Boa ajuda no banho, sentado e ensaboado de desinfectante. No retorno o cansaço já era muito.

E aqui me sentei no chamado "cadeirão", onde me religaram sete fios, cinco de monitorização, um de soro e um da minha "cocaína", chamam-lhe aqui dobutamina, e é ela que me permite ainda ter uma actividade digna de um homo sapiens. Ela está a permitir escrever esta bela mensagem de domingo, e garanto que me vai permitir passar um domingo perfeito, melhor ainda se o Benfica perder no Porto, mas isso nada tem a ver com a dobutamina.

PS: tive de manhã cedo a visita extraordinária da Maria Augusta, que de passagem para o autocarro me veio dar um beijo de despedida.

sábado, 6 de novembro de 2010

Quem espera sempre alcança?


Porquê esta imagem, perguntarão os meus remotos leitores. Todos os dias acordo com um sinal de que um novo dia e uma esperança renasce. Mais quem espera sempre alcança do que que espera desespera. Na realidade a cabeça tem de comandar a vontade do nosso corpo para resistir, não é tudo, mas se a cabeça desiste como fica o resto?

Procuro ocupar a cabeça com diversas ocupações, que variam muito para evitar o cansaço, meu principal problema. Ouço rádio e música, talvez o menos cansativo, alimento um diáro escrito à mão, e este blog, aqui mais dificil, vejo alguma pouca televisão, e procuro ler, embora a leitura me canse bastante.

Vem a propósito pois estou a ler, embora lentamente, um livro escrito pelo meu ex-colega Luis Mira, actual Director de Pessoal da Renault, e que teve a gentileza de me vir entregar pessoalmente ao Hospital com uma dedicatória. São gestos que enobrecem e que outras pessoas ainda não tiveram. Pois o Luis escreveu um livro que é uma crónica pessoal de uma viagem que fez em 2008 pelos States. O livro chama-se "Crónicas da América" e tem o sub-título "Na rota dos grandes espaços da música e do cinema". Uma ideia excelente, de que falarei em breve aqui, de revisitar os grandes espaços relacionados com as nossas memórias de juventude, no que toca as músicos e os filmes que nos apaixonaram.
Está explicada a razão de ser da imagem?

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O dia começa cedo

Aqui no hospital o dia começa antes das 7h00 da manhã com os primeiros comprimidos e as primeiras avaliações da tensão arterial, bem como retirar dia sim dia não sangue. Isso permite que a partir dessa hora me ligue, em geral á Antena 1 para ouvir notícias e rubricas preferidas, como o Pano para Mangas do João Gobern.
Hoje ouvi uma entrevista com o filósofo José Gil, a qual pode ser ouvida na íntegra neste post em baixo, vale a pena mesmo ouvir, onde ele diz que a crise está a tornar os portugueses mais egoístas e o medo regressa ao ambiente de trabalho das empresas, sobretudo aquelas onde se estão a efectuar reduções de pessoal. Cada um trata de si, a cooperação no trabalho é uma excepção, e a regra é salvar a pele, com consequências a todos os níveis, até na produtividade. Diria que isto não é novidade, nós tendemos para o individualismo, e os hábitos de trabalho em equipa nunca foram muitos fortes.
De resto os dias permanecem iguais só a espera desespera.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Feriado


Hoje é dia feriado, no meu caso dia igual aos outros. A ultrapassar, como nos outros dias as minhas fragilidades, que tornam penoso um simples banho, uma vista de olhos na televisão ou no computador, ler e escrever e sobretudo comer. Esta minha incompatibilidade com as refeições chateia. Olhar para aqueles tabuleiros cheios de arroz de frango ressequido, peixe com cheiro a meses de arca congeladora, ou bifes de peru com textura pré histórica, e não comer, irrita. Vale a fruta que se come. Mas o verdadeiro problema é a ausência de apetite, que me faria rejeitar o mais cheiroso arroz de marisco.

domingo, 31 de outubro de 2010

Regresso ou novo intervalo?

Após o último post muito se passou. Aqui estou numa cama de S. Marta rodeado de fios, já com o OK para fazer um transplante cardíaco. Entretanto a Inês cedeu-me este computador para ir passando o tempo, que como se deve imaginar é demais. Fica aqui apenas marcado um regresso que não sei se não será de novo intervalado pela incapacidade da minha cabeça em o actualizar. Veremos quanto tempo tenho para realizar a operação e como tudo terminará. Estou carregado de esperança, penso que mereço viver, mas será que Deus pensa a mesma coisa, ou terá outros planos?

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Consultas destrutivas

Ainda a propósito de 3ª feira passada numa das consulta a que fui. O homem é um barra, ao que parece é mesmo, mas ao anunciar ao doente uma terapia será melhor assustá-lo com todos os riscos dessa terapia, sem valorizar adequadamente as vantagens, será essa a forma de injectar esperança, será o tal realismo. Pôr em causa a eficácia dos meios que eu, embora com limites do meu real conhecimento, sabia já poderem falhar, não será assustar? Assustar será o mesmo que consciencializar o doente dos riscos que corre? A estratégia do copo meio vazio será a melhor?
Na prática só conseguiu colocar-me rastejando, e só pouco a pouco fui erguendo a cabeça. Porque é que não ensinam a estes super especialistas um pouco mais de humanidade no trato?

domingo, 19 de setembro de 2010

Caminho longo e estreito

Continuando da música para a vida, os Beatles, de que sou incondicional, têm no seu derradeiro LP, o discutido "Let it be", de 1970, uma canção chamada "The long and winding road", estrada longa e sinuosa, referindo o seu percurso até chegar ali, pois nesse ano terminaram a sua curta mas meteórica carreira e esta foi uma das suas últimas músicas.
Para mim vejo um caminho longo sinuoso, e além disso estreito, não para trás deste momento, mas para percorrer a partir de agora, e eu com pouca resistência ao vento. Um dia após outro, passo a passo, hei-de percorrer essa "long and winding road".

Uma força positiva


Já se percebeu que tenho uma grande paixão pela música, e tem sido um forte suporte de momentos mais íntimos em que parece que as coisas desabam. Depois ouvimos e voamos com ela para bem longe e de novo aterramos em campos menos agrestes. Gosto de todo o tipo de música, clássica, jazz, portuguesa, brasileira. Mas nos últimos tempos há um disco que tenho ouvido dezenas de vezes no meu iPod. Trata-se de um disco publicado em 1997, "Beyond the Missouri Sky", e nele participam apenas dois músicos, Charlie Haden no contrabaixo e Pat Metheny na guitarra. Tem também um terceiro instrumento, o silêncio... Raramente uns curtos recortes de orquestra.


E somos projectados para as longas planícies desérticas, os grandes espaços, onde o silêncio nos cala, e nos concentra nos acordes. É tão intimista, que ao ouvi-lo muitas vezes me vêm as lágrimas aos olhos (talvez não devesse confessar...) Não é jazz, mas também não é outra coisa, talvez música de fusão (como muitos detratores dizem para apoucar...), sei que faz voar, e não é "lounge" como hoje se diz, é música mesmo muito boa, muito forte, mas sem se impôr, entranha-se, como dizia Pessoa.


Resta ainda que vi ao vivo ambos os músicos em momentos diferentes. Charlie Haden no célebre Cascais Jazz de 1971 (o primeiro), quando após actuar foi posto na fronteira pela PIDE por dedicar uma das músicas aos movimentos de libertação das, na altura, colónias portuguesas, Pat Metheny, muito mais tarde, num excelente espectáculo no Coliseu de Lisboa. em que a meio, uma jovem espectadora, sentada na borda de um camarote, caiu da altura de 2 ou 3 andares, sobre a plateia. Acabou ferida, e Pat interrompeu o espectáculo e dedicou-lhe uma canção. Recordações que perduram.

Da importância de ser terça feira


Já vou na página 149 do livro "As terças com Morrie", que me foi recomendado e oferecido por pessoa amiga. Este livro, sendo uma lição de vida, é também, para mim, e para o meu estado de saúde, algo dificil de "digerir". A doença, a morte, sendo para mim situações tão íntimas, serão passíveis de ser assim expostas, desta forma tão aberta como qualquer facto da vida ? Dir-me-ão que são factos normais na vida de um ser vivo, estar doente, morrer, e que começam com o nascimento. São caminhos que não se conseguem evitar. Mas fazer deles tese, e sobretudo a exposição da morte, impressiona demais. Talvez seja este o objectivo do professor Morrie, descartar a morte como facto emocional e integrá-la na vida. Este é apenas um primeiro comentário, mais tarde voltarei ao assunto.

sábado, 18 de setembro de 2010

De regresso ao meu aconchego

Depois de uns dias ausente no Algarve volto ao meu aconchego, aqui em Ourique. Como diz a canção de Elba Ramalho
Estou de volta pro meu aconchego
Trazendo na mala bastante saudade
Querendo um sorriso sincero, um abraço
Para aliviar meu cansaço.
Já o tinha referido em outro post. Aqui a sensação se segurança é maior, talvez porque aqui estou debaixo da asa dos três anjos, lá apenas disponho da protecção de um deles.
Volto também ao meu blog onde encontro um comentário ao meu Barnabé que penso estar carregado de sabedoria, não por citar George Bernanos ou Confúcio, mas por ter palavras certeiras como setas. Daquelas que vale a pena ouvir, pois são ditas com a vontade de causar efeito. Obrigado por elas.
Este aconchego também não seria possível sem a Maria Augusta, que tem aturado as minhas crises de pessimismo, e não mostra o seu, procurando por actos contrariar o caminho que nos leva ao chão.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Com falas dessas... que esperanças?

Recordo o velho poema de Sérgio Godinho:

Vieram profetas
Vieram doutores
Santos milagreiros, poetas, cantores
Cada qual com um discurso diferente
P'ra curar a vida da gente
E a gente parada fez orelhas moucas
Que com falas dessas
As esperanças são poucas
Mas quando o Barnabé cá chegou
Toda a gente arribou, toda a gente arribou !
Mas o que é que tem o Barnabé que é diferente dos outros?

Preciso é de um Barnabé...

Vem a propósito da minha ida ontem a Lisboa, e as falas de que é preciso fazer agora, o que já podía ter sido feito, ou de que a partir do momento em que se faça o que já devía ter sido feito, então começaremos a pensar fazer o que deve ser feito, e já podía ter sido começado. Valha-me o Barnabé.... e terei tempo?

(Já agora para quem não sabe a canção é de 1972 e o Barnabé era nem mais nem menos que uma referência ao Prof. Marcelo Caetano que na altura aparecia com a imagem de um salvador).

A dignidade acompanha toda uma vida


Obrigado por todo o apoio, força, preocupação e disponibilidade, e já agora... pela flor.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Um campo inacabado


Feito em Maio ou Junho deste ano, este quadro faz parte de um grupo que quis fazer, mostrando a maravilha dos campos alentejanos na primavera. Entretanto por razões de saúde tive de interromper, mas está quase pronto. Já aqui publiquei dois e este seria o terceiro.

domingo, 12 de setembro de 2010

Uma notícia triste



Hoje de manhã ao ler as notícias na net, soube da morte, hoje, do realizador de cinema francês Claude Chabrol. O nome dirá pouco a muita gente, mas quem é da geração 60/70, este nome diz muito por estar associado à Nouvelle Vague do cinema françês, cinema de que muito gosto, embora pouco a pouco esmagado pelas produções de Holywood. Morreu aos oitenta anos, foi um realizador prolixo, e talvez o mais popular dessa geração. Mestre nos filmes acerca das mulheres, filmou-as talvez como só Truffaut o tenha feito. Relembro o último filme que vi dele, já de 1988, "Un affaire de femmes", onde contava a história de coragem, luta, e frieza, da ultima mulher a ser condenada à guilhotina na França ocupada, em 1943, acusada de fazer abortos, Marie-Luise Giraud. O papel é soberbamente desempenhado por Isabelle Huppert. Vamos rever os seus filmes e saberemos muito mais acerca das mulheres... e do mundo que as rodeia.

Fotos da "vernissage"...


No final houve um "Lagoa de Honra" (versão algarvia do Porto de Honra) e um pequeno lanche.


O Dr Joaquim Cabrita, a Maria Augusta e a Drª Clara Andrade


Chegada do veredor da Cultura do Município de Lagoa Dr Joaquim Cabrita.


Umas palavras simpáticas pela DrªClara, a anfitriã, inauguraram a exposição.



A chegada de convidados o Brad, a Manuela, o Eduardo Luís e as minhas filhas Inês e Joana.

Há um ano atrás...

Faz hoje um ano que foi inaugurada a exposição que fiz na Biblioteca Municipal de Lagoa, a convite da Drª Clara Andrade, e após muito trabalho. Foi para mim algo de inesperado, pois jamais, quando iniciei as aulas de pintura com a Manuela, imaginei que pudesse expôr um ano depois. Foi um dia de muita alegria para mim, e também de alguma coragem, pois as obras em exposição eram de um principiante. Expôr assim a um público aquilo que até aí só nós vimos, é algo que deixa marca.

Houve cerca de 50 pessoas nesse dia, desde familia, amigos, companheiros das aulas, e pessoas que apareceram para ver. Uma Biblioteca, sendo um lugar público, facilita muito. Tive incentivos, desde logo e em primeiro lugar da Maria Augusta, mas também da Clara, e da Manuela que me deu um certo OK de que não a deixaria ficar mal...

Trabalhei imenso entre Julho e Agosto do ano passado, pois necessitava de ter um número mínimo de quadros para expôr, e nos inicios de Setembro, ainda estava a acabar alguns trabalhos. Deu-me um enorme prazer. Os quadros que não se vêm na foto podem ser vistos na etiqueta Quadros da exposição "Lagoa em 12 minutos".

O pessoal da Biblioteca também foi impecável no apoio que deu, desde logo o Miguel, mas também a Maria e a Mena, que se encarregaram de organizar o lanche e tiraram as fotos. O vereador da cultura do Município também esteve presente, o que foi simpático da parte dele.


Foi um dia muito bom, dele guardo as melhores recordações. Obrigado a todos os que tornaram possível este dia.


Embora não se vejam nas fotos, tal como as minhas filhas, o Pedro e a Carla vieram de propósito de Lisboa, e chegaram no fim para estar comigo uns minutos, e a Cláudia sei que esteve algures também a dar força.

What's a perfect day...

sábado, 11 de setembro de 2010

Regresso ao meu Norte... o Baixo Alentejo




Depois de uma breve passagem de uma noite estou de novo em Ourique.




Curioso que aqui parece sentir-se uma outra segurança (qual segurança?) que não senti no Algarve. Lá já me sentia um pouco o "peixe fora de água".




Tratados os assuntos, e depois de ontem ter uma sensação de liberdade, estava um dia bonito, a casa tem um grande relação com o exterior, hoje já passei toda a manhã com pouca vontade de sair da cama, e foi lá que fiquei. Uma estranha sensação de insegurança me invadiu, sem razão aparente. Cumpri o ritual de sábado, que é ouvir na Antena 1 o "Hotel Babilónia", das 10h ao meio dia, com o Pedro Rolo Duarte e o João Gobern, através dos auriculares do telemóvel.


Desta vez não ouve Expresso (para quê, os últimos nem os tenho lido). E já estava desejando voltar à minha janela, o que aconteceu logo depois de almoço e da curta sesta.




Entretanto a Drª Ana, médica de família, e mais que isso amiga, decidiu oferecer-me o livro que me tinha recomendado num dos comentários que fez neste blog, "As Terças com Morrie" de Mitch Albom, e, de óculos novos, grande ajuda, já comecei a ler. É pequeno e vou ler, coisa que há cerca de dois meses não faço, por alguma incapacidade de concentração. Mais tarde falarei dele, conforme a impressão que me provocar.




Este post é desinteressante, eu sei, porque alguém pode perguntar, mas afinal que tenho a ver com isto? Mas sem razão, pois o primeiro destinatário deste blog, nesta fase, é o seu autor.


sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Para Sul


Hoje, desde há cerca de 2 meses, vou de novo regressar ao Algarve, mas o retorno será breve. Vou-me "aventurar" a uma saída mais longa, mudar um pouco de ares, e tratar de uns assuntos pendentes, tudo com calma e sem pressa, que assim tem de ser. Dizem que o sol faz bem a estados menos optimistas, e espero que sim. Nunca há 2 meses, quando vim para o Alentejo, após uma série de episódios, me passou pela cabeça que tanto tempo depois ainda aqui estaria, apanhando pouco sol, sem ver o mar, sem uma saída, até á Biblioteca, sem uma dose de sardinhas assadas e pimentos, uma ou várias. Mas espero que isso volte em breve. Vamos experimentar.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Um triângulo vicioso


Ora imagine-se um triângulo com três vértices, como qualquer vulgar triângulo que uma criança desenha num papel, a pedido da senhora professora...


Em cada vértice vamos colocar uma palavra... No vértice A, a palavra "realismo", ou "percepção da realidade"; no vértice B a palavra "preocupação" e no vértice C a palavra "depressão".


Podemos assim enunciar o seguinte teorema: "Sempre que a nossa percepção da realidade nos gera grande preocupação, estamos em risco de depressão", que pode ser complementado com um outro que nos diz que " O aumento do nível de depressão, pode deturpar o sentido das realidades, induzir mais preocupação que o necessário, e portanto gerar mais depressão".


Vem isto a propósito de uma conversa tida, e dos comentários feitos ao meu post anterior. Naturalmente a associação das duas anteriores expressões, nos leva a um "triangulo vicioso" em que a ansiedade vai subir.


Ou então fiquemos pelos axioma "O realismo é pai da preocupação". Não carece de demonstração. Assim estou na minha janela, aberta para dentro...

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A depressão


Já tenho ouvido dizer que estou deprimido, com uma depressão, em estado depressivo. Não me parece nada.
Dir-se-á que o deprimido é o último a reconhecer o seu estado, e como os condenados, o facto de não confessar é porque tem algo a esconder, pelo que é culpado. (este era o método usado pela justiça antes de 25 de Abril, e sei lá agora como será...)
Vamos ver numa entidade idónea o que é isso de depressão. Nada como recorrer ao Governo, que afinal é suposto tudo saber, e perguntar. Ouça lá Drª Ana Jorge o que é a depressão? E ela responde aqui. Entre outras coisas que ela lá diz, estão os sintomas da depressão que são:

Os sintomas mais comuns são:

Modificação do apetite (falta ou excesso de apetite);
Perturbações do sono (sonolência ou insónia);
Fadiga, cansaço e perda de energia;
Sentimentos de inutilidade, de falta de confiança e de auto-estima, sentimentos de culpa e sentimento de incapacidade;
Falta ou alterações da concentração;
Preocupação com o sentido da vida e com a morte;
Desinteresse, apatia e tristeza;
Alterações do desejo sexual;
Irritabilidade;
Manifestação de sintomas físicos, como dor muscular, dor abdominal, enjoo.


Agora começo a ficar preocupado. Está lá tudo, ou será que como nos horóscopos, o que se lê aplica~se sempre um bocadinho a cada leitor. Socorro, Drª Ana Jorge, estou DEPRIMIDO !!!

Será que pode fazer alguma coisa por mim, por exemplo não encerrar mais urgências, abrir novas camas em cuidados continuados, não retirar os internamentos ao Centro de Saúde de Ourique. Como já sei a resposta, a depressão só pode mesmo aumentar....

Ainda outro exemplo

E que dizer de um "auxiliar", o João, que além de fazer tudo aquilo que a Maria José faz, talvez com menos perfeição, pois de um homem se trata... mas com a mesma vontade de bem fazer ainda aproveita os tempos livres para tocar num conjunto musical de baile, cujo nome é "Sem limites" . Podem-no ver em actuação, com a sua viola eléctrica, em primeirto plano. E já que o guitarrista Marc Knopfler é o seu ídolo aqui fica uma pequena Banda Sonora, que ele não irá ouvir, mas que vale a pena ouvir.

Profissionalismo

Surge aonde menos se espera, e não está obrigatóriamente associado às "grandes" profissões, nem aos grandes baluartes do conhecimento.


Querem um exemplo mais simples?

Imaginem uma "auxiliar de acção médica" (agora parece chamados de assistentes operacionais, pois ninguém acha bem uma profissão que consista em "auxiliar"), cuja função está no fundo das funções hospitalares, dominadas por médicos, enfermeiras e técnicos, muito cheios de si, para quem estes "auxiliares" são em muitos casos "moços de recados".

Mas imaginem uma chamada Maria José, que quando chega, dá bons dias a todos os doentes, pergunta como passaram a noite (ou o dia, conforma o caso), limpa, lava, retira urinóis, limpa arrastadeiras, leva-as e retira-as aos doentes com rapidez (nada mais aviltante que fazer "as necessidades" deitado na cama, e quanto mais rápido tudo se passar, melhor), ajuda os doentes a limparem-se, limpa bancadas, aprovisiona e arruma os medicamentos, mantém mesas de apoio, monitores, varões das camas impecáveis, apoia as enfermeiras nas lavagens dos doentes, e no fazer das camas, se um doente pede, vai comprar uma garrafa de água ou um jornal, tudo isto e muito mais sempre com... um sorriso na cara.

No fim do dia, ainda se despede de todos os doentes com desejos de melhoras, mas de todos os 14 ou 15 que se encontram nas várias enfermarias do serviço. Talvez por 600 euros líquidos, mais coisa menos coisa, mas para o profissional a verdadeira retribuição é o resultado obtido todos os dias... o resto toca na motivação, mas estes não deixam que esta se imiscue com o que sabem ser o seu papel, e é com alegria que o desempenham pois têm consciência da sua importância para os outros. e por isso para si próprios.
A dona Maria José existe mesmo....

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A janela


Agora que estou confinado a um espaço reduzido, por enquanto, da cama saio para o escritório breves minutos, as refeições na cozinha e pouca televisão, sem ler, só escrevendo por aqui, ganha importância a "minha janela".

Não me estou a referir a uma janela física, embora ela exista e até a fotografei, mas a janelas que a mente vai abrindo para as coisas que se passam lá fora, e que nos chegam aqui ao quarto num sussurro mitigado, mas que nos permite ainda assim levantar a cabeça para ouvir que afinal podem ser boas novas, se as alegrias dos outros, fizerem parte das nossas alegrias.

Vem a propósito uma notícia pessoal recente, mas que não é segredo, por isso a ela me refiro. A minha enteada Cláudia, após cerca de 8 anos de trabalho, e no meio dos receios que a conjuntura promete, ou deixa imaginar, foi promovida na empresa dela, a Huf em Tondela, e é agora responsável por uma importante área "fiscal, tesouraria, e gestão financeira". Ela que ainda há pouco sentia insegurança.

Ficou naturalmente radiante, e começou a disparar mails em todas as direcções dando mostra do seu contentamento, e numa altura em que são mais as pessoas maltratadas nas empresas, um reconhecimento puxa o ego para cima.

Boas notícias criam bom "feeling", e vamos desvalorizar as outras, as menos boas.

Juntando também à situação das minha filhas Joana, neste momento enfermeira e já efectiva, e Inês, desde Janeiro num lugar também interessante, Training Manager, na Fujitsu Siemens, deixa a sensação de alívio, quando a crise gera mais más notícias que boas. O Pedro, esse está bem e recomenda-se, sendo um bom esteiro do nosso conforto, apesar de distante, no que aliás todos estão.

Afinal da janela vê-se sol... e já agora parabéns Cláudia, partilho da tua alegria e até me sinto um pouco melhor.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Dignidade

Após exorcizar todos os "diabos" que trouxe de quatro semanas de hospital, julgo que estou prestes a terminar estas chamadas "crónicas hospitalares". Mas há uma que falta, e fui guardando para o fim. A história curta do senhor Inácio (desta vez o nome é verdadeiro).


Quando entrei em Julho na unidade de cuidados intermédios, o senhor Inácio estava duas camas ao lado da minha, com problemas cardíacos, mas sobretudo com graves problemas de pneumologia. Não comia, respirava por um balão de oxigénio, que permanentemente retirava, o que lhe valia repreensões das enfermeiras, " senhor Inácio não tire o oxigénio, olhe que é para seu bem", "senhor Inácio, nós não queremos, mas vamos ter que lhe prender as mãos". Nesse dia em que entrei, de manhã, ao almoço a neta visitou-o, e ainda conseguiu dar-lhe um pouco de canja, e uns grãozitos de arroz.


No dia seguinte, estive parte da manhã com algumas arritmías, e a "conversa" com o senhor Inácio prosseguia no mesmo tom. Até que, por breves minutos, adormeci. Ao acordar, alguma agitação nas enfermeiras, o senhor Inácio tinha morrido.


Ali mesmo ao meu lado, sem um gemido, um grito, ou alguma forma de resistência. Com dignidade como se diz que a morte deve ser encarada. Nunca tinha estado tão perto da morte de alguém, mesmo de um idoso como ele, para quem a vida já pouco teria a dar. Veio uma padiola e levou-o, a esposa velhinha chorou baixinho, ali ao pé.


Descanse em paz senhor Inácio. Já mais ninguém lhe vai prender as mãos.

domingo, 5 de setembro de 2010

Os anjos da guarda


Dizer que acredito em anjos, com asinhas, esvoaçando à nossa volta, não, não acredito. Mas que os há, há !!! Pessoas que nos rodeiam e nos protegem, como se de anjos da guarda se tratassem, e procurassem encaminhar, proteger, afastar algo de mal que possa acontecer. Queria salientar três.

A minha mulher Maria Augusta, que nestes tempos conturbados que tenho passado, de dúvidas que também a afectam, talvez até mais do que a mim, pois tenho um sentimento mais real do problema que trago comigo, tem sido de uma dedicação total. Eu sei que faz muitas coisas que não seria o que escolheria para si, apenas para me proteger, velar e manter com zelo a minha auto-estima. Longe de ter asas, este anjo da guarda é eficaz, sabe aproximar-se, mas também afastar-se, para manter a sua mente fria, de maneira a poder continuar a ajudar. Dificil é retribuir, como será sempre para os outros anjos, quando apenas tem para se dar um olhar triste.

Segundo anjo, a Drª Ana Monsanto, que me tem acompanhado, para além de uma normal médica de família, é uma pessoa amiga, para quem um telefonema basta, para que se disponibilize a trazer-me a sua palavra, sempre de quem já me viu em melhores dias, e procura que acredite no retorno desses dias, é também um pouco "psicóloga", sendo também para a Maria Augusta um grande incentivo.

Terceiro anjo, e não menor, a Drª Maria José Duarte, que tudo tem feito para encontrar caminhos, abrir portas, quando precisam de ser abertas, para quem um telefonema pode trazer um alento, uma esperança. A Maria Augusta diz que quando a vejo fico logo melhor, talvez pela segurança e tranquilidade que transmite, pela calma que me imprime, é uma pessoa que tem sempre uma solução a propor, mesmo que seja abrir uma porta noutro local.

Para mim, que confesso, não tinha os médicos no primeiro lugar da minha lista, encontrar estas pessoas, e ainda por cima no Serviço Nacional de Saúde, mudou em muito a minha opinião. E estão de fora outros que pela competência permitem que viva uma vida até certo ponto normal, fora as evoluções mais recentes.

Estes são os anjos que conheço, sem asas nem penas, mas com muita capacidade de voo.